Sunday, March 1, 2026

O INSPECTOR DA FAZENDA

 

O INSPECTOR 

As duas primeiras décadas do século XX trouxeram a Macau figuras de notável erudição, entre as quais sobressaíam Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes, o Macaense José Vicente Jorge e Dom José da Costa Nunes, bispo da cidade, como verdadeiros luminares de uma época singular.

Corria o ano de 1915 e Macau encontrava-se sob o governo do oficial da Marinha José Carlos da Maia.

Segundo as memórias e estórias dessas décadas, Macau albergava também alguns quartéis, sendo digno de nota, para este relato, o Quartel da Flora, vizinho do Palacete homónimo, onde o Governador desfrutava os verões. Era ali que a cidade se perdia em sombras de estórias e personagens.

Nesse mesmo tempo, desembarcou na colónia, um funcionário público vindo da República, incumbido de escrutinar a Fazenda Pública. A sua identidade perdeu-se nos registos, restando aqui apenas como o Inspector da Fazenda. Hospedou-se no luxuoso Hotel Hing Kee, na rua da Praia Grande, onde a elite da cidade se reunia em grupos de conversa.

Convém salientar que o quotidiano de Macau pouco se alterou com tal presença. O novo hóspede dedicava-se, com rigor quase obsessivo, não apenas às contas públicas, mas também ao estudo minucioso do Boletim Oficial, mergulhando na legislação da colónia como quem busca, nas entrelinhas, a própria razão de ser.

E foi entre papéis e decretos que encontrou, com contido deleite, uma disposição que lhe concedia, enquanto inspector da Fazenda da República, equivalência à patente de coronel em terras de Macau. Os olhos brilharam-se-lhe com a descoberta, ele que até então se ocultava sob o véu do anonimato e do dever burocrático. Guardou na pasta de couro que trouxera, o Boletim Oficial, assinalando a tinta o decreto que lhe equiparava o estatuto.

Era este inspector, segundo sussurros de fontes discretas, monárquico convicto e zeloso das honrarias e privilégios que imaginava merecer.

Tomou, então, um riquexó puxado por um cule1, ordenando ao condutor que o levasse ao quartel da Flora, pela estrada da Vitória, próximo da residência de Carlos da Maia, onde os ecos do verão ainda ressoavam. Dirigia-se para lá, fora das portas da pequena cidade, como quem parte em missão secreta, tal o isolamento do local. 



Hotel Hing Kee


Ia sentado, hirto, as mãos apertando a pasta que trouxera de Lisboa, guardando o Boletim Oficial.

Ao chegar a escassos metros da porta de armas, ordenou ao cule que parasse. Desceu do riquexó e aproximou-se do soldado de guarda. Solene, retirou da pasta o Boletim Oficial e, lendo em voz alta ao perplexo militar, declarou que, segundo o documento, detinha a patente equivalente à de coronel, devendo, por isso, ser saudado com armas. O tom categórico deixou o soldado atónito, mas obediente. Bradou às armas, e cinco militares, atrapalhados e de olhos arregalados, prestaram-lhe honras com uma reverência que mal sabiam se era de respeito ou de incredulidade.

O episódio rapidamente correu a cidade, alimentado por gargalhadas ou risos contidos nos salões, como uma anedota que desafia a seriedade dos uniformes.


O EXILADO 

Camilo Pessanha chegara a Macau em 1894, nomeado professor de Filosofia no recém-criado Liceu, cargo que exerceu até ao último sopro de vida, acumulando ainda as funções de Conservador do Registo Predial, Magistrado e, acima de tudo, Poeta. O seu nome ecoava nas salas e nos becos, como quem pertence ao próprio território.

Ana de Castro Osório permanecera em Portugal, amiga e futura editora. Pessanha foi-se tornando franzino, consumido pelo ópio, mas nem por isso menos excêntrico, cultivando hábitos estranhos em casa e mostrando, em público, um humor por vezes mordaz. Era um exilado voluntário, chamando, por vezes, à terra, o epíteto de montureira, mesmo sendo um apaixonado coleccionador da arte chinesa que a cidade lhe oferecia como consolo. 

Pessanha era também figura presente nos grandes momentos sociais, como na recepção ao mítico fundador da República Chinesa, Dr. Sun Yat Seng.


Pessanha à esquerda e Sun Yat Seng à direita

Sucede que o episódio do inspector da Fazenda chegou inevitavelmente aos ouvidos do poeta, tal como ao resto da população de expressão portuguesa. Pessanha, espantado com tamanha audácia, aproveitou uma recepção oficial no Palácio do Governo para observar o protagonista do insólito, homem de barba negra, monóculo e corpo rotundo, que conversava, ainda ignaro das vozes da terra. Eis então que um estrondoso "às aaaarmaas!" ecoou pelos salões, arrancando aplausos e gargalhadas. O inspector, surpreendido, de rosto congestionado, agarrou a bengala e, fitando Pessanha, aproximou-se furioso.

— Olhe que eu dou-lhe duas bengaladas! — exclamou, fora de si, com voz trémula de cólera.

Pessanha, do alto da sua delicada fragilidade, respondeu apenas com um sorriso sarcástico, devolvendo à cena uma fina ironia.

— É uma opinião. — disse, e voltou-lhe as costas, afastando-se displicentemente do mundo dos coronéis improvisados.

 

Nota1: cule era a designação dos trabalhadores de origem chinesa nas colónias portuguesas. Vem do inglês coolie.

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