Thursday, March 14, 2024

CHIANG QI

 

A velha casa de chá, quase tão antiga como a rua onde as lajes de granito chinês se misturam com o troço da calçada à portuguesa e o asfalto, como se de degraus de vários tempos se tratasse, mantinha o ar arejado desde a última vez que a visitara, para sentir o nascer do sol. 

Curioso como uns preferem ver o dealbar e outros senti-lo. Há nessa transição toda uma transformação que se opera, metamorfose dos contrários, energias que se vão, outras que renascem, cumprindo eternos ciclos cujo testemunho nos passa ao lado, indiferentes pelo hábito. 

Olhei a porta da cozinha de onde saía abundante vapor de cozedura a que as iguarias daquela hora matinal eram sujeitas para agradar ao paladar exigente dos clientes. Na imensa sala, aqui e ali, pendiam gaiolas de pássaros, tranquilas ainda, cobertas pelos panos que procuravam manter as aves em repouso, enquanto os donos e outros fregueses bebiam chá lendo o jornal, indiferentes na aparência à transmutação das horas. 

O dia afirmara-se por fim, e eu notara que não tinha bebido café, mas sim chá, troca que me soubera bem, afinal também eles ícones de dois mundos. Decidi que era hora de retornar a casa. Levantei-me e foi então que senti as dedadas de um olhar cravado nas minhas costas. 

– Bom dia. Tenho estado a observá-lo, disse Zhou Yun com um sorriso prazenteiro, sentada à frente de um bule de chá e de um pratinho vazio.
– Fico contente por saber que gosta de acordar cedo. 

Pus as mãos nos bolsos, sorri por detrás dos óculos escuros. 

– Não posso! exclamei. 

– Não pode o quê? inquiriu Zhou Yun. Interiormente sorri, porque ninguém domina as subtilezas inteiras de uma língua. 

– É uma forma de dizer que foi uma surpresa encontrá-la aqui, expliquei, não muito certo de ter sido convincente.
Zhou Yun afastou o prato como que a dar-me espaço, e dei comigo sentado à mesa da jovem. 

– A que horas começa a trabalhar? perguntou-me, quando me sentei. 

– Tudo depende do que considera trabalho, retorqui. 

– Acho que a maioria das pessoas não gosta do que faz, por isso lhes chama trabalho. O que pensa disso? 

– Sentia-me confortável a conversar com Zhou Yin, tal como no ditado chinês “yi hui sheng, er hui shu” (à primeira estranhos, à segunda conhecidos). 

Zhou Yin ignorou a pergunta e pegando numa lindíssima caixa quadrada, em cabedal lacado, abriu-a, revelando um tabuleiro e peças que percebi serem de xadrez chinês. 

– Este jogo é o Chiangqi, explicou com ar compenetrado.  Chiang, elefante, porque as pedras eram feitas de marfim e Qi, xadrez, estratégia. O lendário imperador Huang Ti tinha no seu exército um destacamento de elefantes. O Chiangqi deriva de uma espécie de gamão inventado pelos chineses há cerca de 3.500 anos, chamado Liubo. 

Zhou Yun falava enquanto ia alinhando, vagarosamente, as peças no tabuleiro, os olhos fixos no que fazia. 

– Durante a dinastia Zhou do Norte 北周, o imperador Wu 武帝 resumiu e desenvolveu este jogo num texto chamado Chiang Jin. No terceiro ano de Tian He, o imperador chamou os seus ministros e demonstrou a sua versão do jogo. 

Notei que entretanto, estranhamente, o vapor da cozinha inundara a sala, velando a visão, tão cerrada era a névoa. Pouco mais via do que a mesa e Zhou Yun. 

– A versão que tenho já é mais moderna. Todo o jogo se resume a defender o general que é quem comanda as tropas, acrescentou com a maior naturalidade. 

– Esta peça é o general, esta é um carro de guerra, esta traz o símbolo do canhão, aqui está o cavalo, este é o guarda, aqui está o elefante e estes são soldados. 

Enquanto admirava as peças, olhava a estranha bruma em volta, como um imaterial biombo destinado a reter a areia da ampulheta. 

Zhou Yun, terminada a explicação, colocou as mãos entrelaçadas sob o queixo, aguardando a minha reacção. Parecia não dar pela neblina, fixando um olhar vagamente inquiridor sobre mim. 

– Curioso! Como se defenderá o general de um ataque? perguntei, olhando o tabuleiro. Está mesmo no centro! 

O rosto da jovem sorriu, iluminando a bruma. 

– Mas claro! e à frente tem os soldados e canhões. Senti-me subitamente imensamente triste. 

– Por falar em homens que comandam, recordei-me de um que morreu no tabuleiro. 

Brincando com um dos elefantes, a jovem retorquiu: 

– O Chiangqi é assim. 

Levei tempo a responder. A tristeza sabia amargamente. 

– A estratégia nem sempre chega, no tabuleiro da vida. Há generais que morrem pelo que lutaram sem nunca terem entrado numa guerra. 

A jovem fitou-me intrigada. 

– O que quer dizer? isso é uma metáfora? porquê a tristeza? 

As perguntas surgiam em catadupa. 

– É difícil explicar – retorqui. – Há pouco tempo mataram um homem que fala a minha língua. Mataram-no no tabuleiro, um homem generoso, que queria apenas o bem dos outros. 

De novo Zhou Yun me olhou, inquisitiva. 

– Mas o Chiangqi não é senão um jogo onde as peças que mais contam não estão no tabuleiro. É fora do tabuleiro que se pensa como se ataca e defende. O tabuleiro é apenas o palco. 

Bebeu cerimoniosamente um gole de chá, fez uma pausa, tapando cuidadosamente a chávena. 

– Eu sei quem é esse grande homem. A história do meu país, a história do seu e a de todos os países é feita de homens abnegados. Mas a humanidade será sempre assim. É apenas a sua memória que se homenageia. Por isso, no meu país, houve tantos eremitas em Huang Shan 黄山. Porque se diluíam nas cavernas ou nos templos. 

Ergui-me lentamente, olhei as pedras e o tabuleiro. 

– Falaremos um dia do ser humano. Até breve Zhou Yun, acrescentei. Obrigado pela lição de Chiangqi.
Mergulhei na bruma e, de cor, desci as longas escadas que davam para o dia assente na rua, borbulhante de vida.