Thursday, September 19, 2024

A TERRA DE DORNES



Terra mítica dos Templários, Dornes, nas margens do rio Zêzere, é cheia de recantos, fendas e segredos para descobrir. É uma das mais belas aldeias do país.


Localizada a 10 km a nordeste de Ferreira do Zêzere, numa enseada da albufeira de Castelo do Bode, a aldeia de Dornes é uma das mais curiosas do centro de Portugal, tanto pela sua localização invulgar, pelas vistas e pelas casas pitorescas, como pelas lendas e tradições a ela associadas.


Dominando as casas baixas, predominantemente brancas, está a torre medieval, que se pensa ter sido construída pelos Cavaleiros Templários para guardar o profundo vale do Zêzere. A fundação de Dornes remonta ao século XII e está ligada ao aparecimento de uma imagem milagrosa de Nossa Senhora do Pranto.


A primeira igreja de Dornes foi construída pela rainha Santa Isabel (filha do rei de Aragão e Mulher de D. Dinis) no final do século XIII, substituída por uma maior no século XV. 

A romaria de Nossa Senhora do Pranto realiza-se a 15 de agosto e atrai uma grande multidão.


Terra muito antiga, Dornes existia ainda antes da fundação de Portugal, como atestam os monumentos e vestígios arqueológicos que aí foram encontrados.


Já na primeira dinastia alguns documentos a ela se referem, estando documentada a presença de um monge dornesense no Foral de Arega, no início do século XIII.


Ainda no século XIII há referências à Comenda Templária de Dornes. Mais tarde, no século XV, Dornes, enquanto Comenda Mor da Ordem de Cristo, teve como Comendador D. Gonçalo de Sousa, homem muito influente da Casa do Infante D. Henrique, que ali mandou construir a Igreja de Nossa Senhora do Pranto, em 1453.


Este local de culto deu à vila, parte da importância que originou, em 1513, a atribuição do Foral Manuelino (era um documento régio usado em Portugal, que visava estabelecer um município e regular a sua administração, deveres e privilégios. A palavra "foral" deriva da palavra portuguesa "foro", que por sua vez provém da palavra latina "forum".


Bela Terra do país mais antigo da Europa com fronteiras definidas.






Thursday, March 14, 2024

CHIANG QI

 

A velha casa de chá, quase tão antiga como a rua onde as lajes de granito chinês se misturam com o troço da calçada à portuguesa e o asfalto, como se de degraus de vários tempos se tratasse, mantinha o ar arejado desde a última vez que a visitara, para sentir o nascer do sol. 

Curioso como uns preferem ver o dealbar e outros senti-lo. Há nessa transição toda uma transformação que se opera, metamorfose dos contrários, energias que se vão, outras que renascem, cumprindo eternos ciclos cujo testemunho nos passa ao lado, indiferentes pelo hábito. 

Olhei a porta da cozinha de onde saía abundante vapor de cozedura a que as iguarias daquela hora matinal eram sujeitas para agradar ao paladar exigente dos clientes. Na imensa sala, aqui e ali, pendiam gaiolas de pássaros, tranquilas ainda, cobertas pelos panos que procuravam manter as aves em repouso, enquanto os donos e outros fregueses bebiam chá lendo o jornal, indiferentes na aparência à transmutação das horas. 

O dia afirmara-se por fim, e eu notara que não tinha bebido café, mas sim chá, troca que me soubera bem, afinal também eles ícones de dois mundos. Decidi que era hora de retornar a casa. Levantei-me e foi então que senti as dedadas de um olhar cravado nas minhas costas. 

– Bom dia. Tenho estado a observá-lo, disse Zhou Yun com um sorriso prazenteiro, sentada à frente de um bule de chá e de um pratinho vazio.
– Fico contente por saber que gosta de acordar cedo. 

Pus as mãos nos bolsos, sorri por detrás dos óculos escuros. 

– Não posso! exclamei. 

– Não pode o quê? inquiriu Zhou Yun. Interiormente sorri, porque ninguém domina as subtilezas inteiras de uma língua. 

– É uma forma de dizer que foi uma surpresa encontrá-la aqui, expliquei, não muito certo de ter sido convincente.
Zhou Yun afastou o prato como que a dar-me espaço, e dei comigo sentado à mesa da jovem. 

– A que horas começa a trabalhar? perguntou-me, quando me sentei. 

– Tudo depende do que considera trabalho, retorqui. 

– Acho que a maioria das pessoas não gosta do que faz, por isso lhes chama trabalho. O que pensa disso? 

– Sentia-me confortável a conversar com Zhou Yin, tal como no ditado chinês “yi hui sheng, er hui shu” (à primeira estranhos, à segunda conhecidos). 

Zhou Yin ignorou a pergunta e pegando numa lindíssima caixa quadrada, em cabedal lacado, abriu-a, revelando um tabuleiro e peças que percebi serem de xadrez chinês. 

– Este jogo é o Chiangqi, explicou com ar compenetrado.  Chiang, elefante, porque as pedras eram feitas de marfim e Qi, xadrez, estratégia. O lendário imperador Huang Ti tinha no seu exército um destacamento de elefantes. O Chiangqi deriva de uma espécie de gamão inventado pelos chineses há cerca de 3.500 anos, chamado Liubo. 

Zhou Yun falava enquanto ia alinhando, vagarosamente, as peças no tabuleiro, os olhos fixos no que fazia. 

– Durante a dinastia Zhou do Norte 北周, o imperador Wu 武帝 resumiu e desenvolveu este jogo num texto chamado Chiang Jin. No terceiro ano de Tian He, o imperador chamou os seus ministros e demonstrou a sua versão do jogo. 

Notei que entretanto, estranhamente, o vapor da cozinha inundara a sala, velando a visão, tão cerrada era a névoa. Pouco mais via do que a mesa e Zhou Yun. 

– A versão que tenho já é mais moderna. Todo o jogo se resume a defender o general que é quem comanda as tropas, acrescentou com a maior naturalidade. 

– Esta peça é o general, esta é um carro de guerra, esta traz o símbolo do canhão, aqui está o cavalo, este é o guarda, aqui está o elefante e estes são soldados. 

Enquanto admirava as peças, olhava a estranha bruma em volta, como um imaterial biombo destinado a reter a areia da ampulheta. 

Zhou Yun, terminada a explicação, colocou as mãos entrelaçadas sob o queixo, aguardando a minha reacção. Parecia não dar pela neblina, fixando um olhar vagamente inquiridor sobre mim. 

– Curioso! Como se defenderá o general de um ataque? perguntei, olhando o tabuleiro. Está mesmo no centro! 

O rosto da jovem sorriu, iluminando a bruma. 

– Mas claro! e à frente tem os soldados e canhões. Senti-me subitamente imensamente triste. 

– Por falar em homens que comandam, recordei-me de um que morreu no tabuleiro. 

Brincando com um dos elefantes, a jovem retorquiu: 

– O Chiangqi é assim. 

Levei tempo a responder. A tristeza sabia amargamente. 

– A estratégia nem sempre chega, no tabuleiro da vida. Há generais que morrem pelo que lutaram sem nunca terem entrado numa guerra. 

A jovem fitou-me intrigada. 

– O que quer dizer? isso é uma metáfora? porquê a tristeza? 

As perguntas surgiam em catadupa. 

– É difícil explicar – retorqui. – Há pouco tempo mataram um homem que fala a minha língua. Mataram-no no tabuleiro, um homem generoso, que queria apenas o bem dos outros. 

De novo Zhou Yun me olhou, inquisitiva. 

– Mas o Chiangqi não é senão um jogo onde as peças que mais contam não estão no tabuleiro. É fora do tabuleiro que se pensa como se ataca e defende. O tabuleiro é apenas o palco. 

Bebeu cerimoniosamente um gole de chá, fez uma pausa, tapando cuidadosamente a chávena. 

– Eu sei quem é esse grande homem. A história do meu país, a história do seu e a de todos os países é feita de homens abnegados. Mas a humanidade será sempre assim. É apenas a sua memória que se homenageia. Por isso, no meu país, houve tantos eremitas em Huang Shan 黄山. Porque se diluíam nas cavernas ou nos templos. 

Ergui-me lentamente, olhei as pedras e o tabuleiro. 

– Falaremos um dia do ser humano. Até breve Zhou Yun, acrescentei. Obrigado pela lição de Chiangqi.
Mergulhei na bruma e, de cor, desci as longas escadas que davam para o dia assente na rua, borbulhante de vida.