Tuesday, August 9, 2022

WONG FEI HONG - UMA BD 45 ANOS DEPOIS

 

A HISTÓRIA DE UMA BANDA DESENHADA

Nos inícios da década de 1960, eu assistia no canal Jade da Televisão de Hong Kong a uma série de aventuras a preto e branco de um herói que tinha nascido em Foshan, uma cidade onde existiam várias escolas de artes marciais em simultâneo com uma antiga arte da cerâmica que se praticava desde tempos remotos na mesma região, conhecida como cerâmica de Shiwan.

Sucede que, entusiasmado com os ingénuos filmes da altura, consegui ser aluno do mestre de artes marciais e médico de contusões e pancadas, o actor Kwan Tak Hing, que encarnava o herói Wong Fei Hong, conhecido como um dos cinco tigres de Cantão, termo então utilizado em substituição de Guangdong, a província onde Macau se situa. 

eu com 8 anos e o meu mestre, o actor Kwan Tak Hing 

Kwan Tak Hing no papel de Wong Fei Hong

Porém, só muito mais tarde, com o advento da internet, é que me foi possível descobrir o rosto de Wong Fei Hong, médico de medicina chinesa em cujo consultório, conhecido como Pou Tchi Lam 寶芝林, Wong praticava acupunctura e medicina chinesa.

Retrato do verdadeiro Wong Fei Hong

Este verdadeiro Mestre de artes marciais pertencia à escola de "Hung Gá Kuen" (洪家拳) e, como todos os mestres, seguia uma linhagem que o leva a seu Pai, Wong Kei Yeng, que desde os cinco anos do filho o ensina. 
O Hung Gá (
洪家) tem origem no século XVII, no Sul da China. A história tornada lenda conta que um monge do templo de Shaolin, Ji Sin Sim Si ("sim si" = mestre zen) esteve no surgimento de Hung Gá. O mestre Ji Sin viveu durante um período de lutas na Dinastia Qing. Praticou as artes durante uma época em que o Templo de Shaolin se tornou um refúgio para aqueles que se opunham aos estrangeiros Manchus da dinastia Qing (1644-1912), que tinham imposto aos chineses da etnia maioritária Han o uso do crâneo rapado até meio e o uso de uma trança. Nas lutas já referidas, o templo de Shaolin foi incendiado pelas tropas manchus, e muitos fugiram para o templo afiliado do de Shaolin, situado mais a sul, na província de Fujien, no sul da China, junto com mestre Ji Sin.
Aí, acredita-se que mestre Ji Sin treinou várias pessoas, incluindo os chamados discípulos leigos de Shaolin.
As linhagens eram muito importantes nas várias artes. Saber com quem se tinha aprendido era quase um certificado de competência.

Em 1976 iniciei e acabei o álbum a que chamei Vento de Shantung

O grande divulgador de cinema animado e banda desenhada, Vasco Granja, por razões que já não me recordo, foi fazer um programa comigo na Escola Gago Coutinho em Alverca, onde eu dava aulas de Educação Visual fazendo, nessa altura, cinema de animação com os alunos, corria o ano de 1975.

Vasco Granja e eu, só de bigode, aos 24 anos.

Foi Vasco Granja quem me convidou para ir à Lucca Dodici, festival de Banda Desenhada na cidade de Lucca, muito próximo de Pizza. Os meus temas tinham sido sempre orientais. 
De volta a Portugal, e recordado dos filmes de Wong Fei Hong, dediquei-me a desenhar 40 páginas em formato A1 (594 x 841 mm) durante o período da Guerra dos Boxers.

Em 1977 a Edibanda publica o meu álbum.


Folha de rosto da primeira edição — 1977


Em 2010 uma nova edição, agora de autor

O António Falcão insistiu comigo para reeditar o álbum, o que aconteceu em 2010 e o lançamento teve lugar na Creative Macau com apresentação do Dr. José Luís de Sales Marques, e apadrinhado pelo António Falcão, que lê o seu generoso texto .

Dr. Sales Marques apresentando o autor


António Falcão lendo o seu texto de apresentação


Uma vista do público


O álbum não pode ser lido num blog. Apenas alguns desenhos podem ser colocados com comentários do autor, que talvez possam ajudar a "olhar", na perspectiva autoral, alguns dos desenhos.

folha de rosto da 2a. edição enfatizando a dança do leão


 
uma cena de luta


Decidi destacar este desenho da geminação anterior porque aqui a tensão é maior



Este é outro exemplo do que, a meu ver deveria ressaltar, mas precisa de estar inserido na narrativa.

O desenho e a frase ameaçadora são o que a meu ver, marcam mais.



Esta prancha é a narrativa de um combate entre o "bom", Wong Fei Hong, e o "mau" com um final de combate terrível mas que existe. Com excepção do desenho superior que reconstitui o movimento de se erguer, os restantes desenhos vivem da inteligência visual do leitor, como em todas as bandas desenhadas para, através da elipse temporal, dar movimento à sequência dos desenhos.