Monday, February 1, 2021

YIN


A sombra constitui, na sua essência, a imaterial projecção de um corpo iluminado, espécie de Yin do Yang, o lado frio e obscuro que, se por vezes apetece, é negrume onde habitam fantasmas. Daí que a cegueira se conote com as sombras, onde tudo parecerá pardo para aquele que fisicamente vê. Porém a vista apenas enxerga o ilusório visível, o mundo das imagens que hoje, em catadupas, povoam as mentes de quase todos.

Hui Ming Yao não vê porque viu demais. Conheci-o sentado, olhando-me fixamente no Largo de São Domingos. O seu olhar não se envergonhava de se fixar em mim. Só percebi que era cego porque, ao saír da linha de visão, o seu olhar permanecera fixo. Foi a primeira lição de humildade que, naquele dia, Hui me deu sem sequer nos conhecermos. 

Hui Ming Yao nasceu em Nanjing, em 1925, pouco antes de a sua cidade natal se ter transformado em capital por vontade dos nacionalistas, que iam perdendo o controlo do país em toda a linha. Hui viria a comentar à parte que Chiang e os seus, eram um bando de pomposos cobardes que fugiam dos japoneses a maior parte do tempo, cuidando apenas de si mesmos e arrastando consigo tudo o que podiam. Pouco amor pelo país, muito pela vida, comentário que a história regista deixando à interpretação do futuro as revelações que inevitavelmente vêm ao de cima. 

Em meados de 1937, das duzentas e cinquenta mil almas que habitavam a cidade dez anos antes, a população tinha aumentado para um milhão, a maior parte fugida, desde 1931, dos exércitos japoneses. 

Em 11 de Novembro de 1937, após a ocupação de Xangai, as tropas nipónicas avançaram de diferentes direcções sobre Nanjing. A 9 de Dezembro desse ano os japoneses lançam um ataque massivo sobre a cidade, e a 12 as tropas chinesas nacionalistas decidem retirar-se para a outra margem do Yangtze, desprotegendo a então capital. No dia seguinte o terror começava a instalar-se nos habitantes, com a entrada de duas divisões do exército invasor, uma pela porta Guang Hua e outra pela porta Tai Ping.

Hui Min Yao comentava o que eu já sabia: que o militarismo nipónico tinha ido beber de novo às suas origens, à casta dos arrogantes samurai que maltratavam o seu próprio povo, entretidos em guerras, conspirações e jogos de poder, enquanto o camponês ou o mercador eram mortos por discricionário capricho dessa gente. 

Pela tarde do dia 13 de Dezembro de 1937, duas flotilhas, subindo e descendo o Yangtze, consumam a ocupação da cidade. Nas seis semanas seguintes iria iniciar-se um préstito de barbárie a que o pequeno Yao iria assistir. De fuzilamentos a todo o tipo de execuções. O pai fora também arrebanhado, suspeito de resistente. Depois do jovem ter sabido da mãe, violada até à morte, assistiu à decapitação do pai. Um último olhar de preocupação pelo filho, e o sabre ceifa do corpo a cabeça que cai com um baque surdo, o sangue das aortas jorrando, os soldados de baioneta festejando mais uma proeza do chefe. Muitos mais se seguiriam, alguns de crianças da sua idade, mas o que vira fora demais e, como uma benção do céu, os olhos de Yao deixaram de ver, assim sem aviso. 


Subitamente, aos 13 anos, Hui Ming Yao cegara sem que lhe tocassem, recusa de ver mais horrores que os que vira. O cheiro do sangue ia invadiando a praça, até que mão amiga o guiou gentilmente para fora do círculo dos forçados espectadores, e o conduziu sorrateiramente para lugar desconhecido. 

Diz-me que o seu benfeitor o levara ao colo ou arrastando-se pelo chão, dando-lhe do que havia para comer. Era um homem que aparentava ser forte e a quem mais tarde chamou pai. Talvez fosse camponês ou trabalhador braçal. Falavam em sussurro. Lembra-se de ter viajado numa carroça por baixo de palha e entre sacos de arroz. Ouviu o balancear do comboio e o barulho do mar, num junco. Lembra-se de, finalmente, terem chegado a Macau, de onde nunca mais saíu, e onde aprendeu a profissão de ervanário e massagista, enquanto o seu salvador e pai adoptivo trabalhara como condutor de triciclos, depois numa fábrica de panchões, e finalmente numa casa de chá. Falava o cantonense com toda a fluidez ainda que, aqui e ali, um tom qualquer ainda traísse a sua origem.  

O rosto de Hui Ming Yao, apesar da humidade de Macau, é fortemente vincado. Cada ruga é uma página, o rosto uma história. O olhar, vago para fora, quase inocente, lembra a tampa de uma caixa feita para guardar, que outras há feitas para ostentar. Conversa suavemente, numa cadência certa, que as palavras sabe-as do mundo para onde o seu testemunho o remetera, certamente povoado de repetidos fantasmas, sombras de imagens terríveis. Lembra-se claramente dos tempos duros de Macau, da fome dos anos em que os invasores rondavam bem perto. 

Disse-me que não, que nunca mais vira nada, que nem era preto nem branco o que via, apenas deixara de ter esse sentido. Via de outra forma: eram ideias, recordações, marcas que se liam noutra parte do cérebro. Contudo, a profissão que abraçara — massagens sem visão são como segredo sem boca – permitira-lhe ir conhecendo os homens. Cada músculo contraído tinha uma razão, era como boca que falasse aos seus dedos. Por vezes encontrava nódulos que lhe falavam de histórias várias  e, entretanto, foram os dedos ganhando ouvidos e tudo era claro para ele, Yao, cujos olhos se recusavam a ver. Bastas vezes escutara basófias dos clientes que os dedos desmentiam, mentiras de alcova ou de vanglória. Depois do que vira antes de cegar, nada já o espantava na condição humana. A voz recolhida, os ouvidos e dedos ouvindo histórias desiguais, que a boca sempre pode mentir, mas só a boca. Ouvia e calava como a caixa em que se tornara, limpando as mãos das imperfeições dos clientes, terminada a massagem, perguntando-se como suportava saber tanto e calar. Mas se a sua vista se tinha definitivamente cerrado ao mundo, compreendia que lhe cabia dar à sua boca e ouvidos o mesmo destino. Afinal apenas assistia, não participava.

O destino atirara-o para uma orfandade violenta e dera-lhe uma visão da parte mais negra da humanidade. Percebera que perante tal vida restava-lhe apenas a aceitação do seu destino. À noite acendia o incenso ali num cochicho da rua do Volong e sobre o modesto burro de lona onde dormia, demorava-se a recitar o amidhaba, procurando que nada do seu passado permanecesse agarrado ao presente. O resto, o resto é só Yin.