
1 Professor Zhao Wan Fang 2 Director dos Serviços de Cultura
Ao recuperar a fotografia que ilustra esta pequena estória, saltaram-me da sombra algumas personagens que intervieram no evento.
Em primeiro lugar, o professor Zhao Wen Fang (em cantonense Chio Man Fong) foi colocado no Museu Luís de Camões sem que eu o tivesse solicitado.
Não me opus, preferi estudar o personagem. Tinha um rosto de feições patrícias do Norte, comparável, por exemplo, a Zhou En Lai, ministro dos Negócios Estrangeiros da China.
Aos poucos fui sabendo que tinha sido expurgado durante a Revolução Cultural porque os intelectuais eram burgueses.
Zhao, a mulher e a filha conseguiram chegar até Macau, e alma caridosa que lhe reconhecia mérito e conhecimento, em deliberação camarária, conseguiu que o destacassem para Conservador-Adjunto numa altura em que a língua portuguesa era a oficial, coisa que o professor Zhao, que não falava o cantonense, estava longe de falar.
Ei-lo em Macau, no meu Museu, aprendendo novos hábitos e costumes, um gabinete só para ele. Certa vez, tendo-se desentendido com Wong Chan Fâi, o carpinteiro, que era mestre de Kung Fu, natural de San Wui, bateu-me à porta e, com ele, arrastava uns quinze funcionários, incluindo o carpinteiro. Vinha dar conta de que o carpinteiro Wong lhe tinha desobedecido e que era fundamental, imperioso, que todos os funcionários se unissem na obediência a mim, para que o Museu singrasse. Prontamente detectei os tiques e os hábitos que trazia. Aquilo ameaçava tornar-se num comício. Prontamente mandei saír toda a gente, e armado de muita paciência, fui-lhe dizendo que em Macau não era assim que se resolviam as coisas e que falava com ele em particular para não lhe tirar a face, coisa que os chineses têm na maior conta, porque a face se lhes colou ao ego, ou, se se quiser, face e ego confundem-se. Explicado o assunto, o professor Zhao, entre o contrariado e o espantado lá ia murmurando hao de, hao-hao, que sim. E lá se foi, para os seus manuais e caligrafia que praticava. Tinha um quê de irrequieto o professor, em vez da circunspecção que seria de esperar de um académico.
Certo dia, por volta de 1983, entendi que seria importante visitar Cantão, em chinês Guangzhou, e prontamente, o nosso professor tratou de escrever para a direcção dos Serviços de Cultura de Guangzhou de que resultou a nossa ida à cidade das Cinco Cabras.
A viagem naquela altura não se comparava àquela que hoje se faz. De qualquer modo fomos na companhia do professor Zhao, que conhecia os hábitos do continente.
Era uma China muito diferente daquela que hoje existe. Deng Xiao Ping estava prestes a aplicar o seu sábio princípo de um País, Dois Sistemas, que tão bons frutos iria dar a toda a China.
Instalados num hotel da capital da província de Guangdong (Cantão), fomos recebidos na manhã do dia seguinte pelo director dos Serviços de Cultura de Guanzhou e alguns quadros superiores.
Após a tradicional troca de amabilidades, na sede dos Serviços que ficava numa antiga escola, com um pátio enorme onde foi proclamada uma revolta na dinastia Qing (1644-1911), foram-nos explicadas as competências e objectivos dos Serviços de Cultura. O Director era de Xantung, no Norte. Sempre fora assim desde há séculos. Sendo um país imenso, os governadores e outros dirigentes eram nomeados para regiões distantes para evitar compadrios, e o mais que se supõe.
Este director vestia o traje que vinha directamente da revolução republicana, depois popularizado por Mao Zedong. Falava um cantonense com uma cerrada pronúncia da sua terra natal, porquanto o Putong Huá, o mandarim, é que era e é a língua comum a toda a China, inundada de dialectos e de 56 minorias étnicas.
Terminado o almoço que nos foi oferecido, fomos passear para o dito pátio gigante, altura em que o referido director me toma pelo braço e se afasta mais dos restantes, minha Mulher incluída.
Então, fala-me da palavra Macau. Diz-me que a gente de Guangdong é grosseira, que em cada 3 palavras 4 são palavrões, e que o dialecto não ajudava nada. E então os pescadores, aquilo não era linguagem de gente.
“Sabe” disse-me com um sorriso, “quando os portugueses aportaram ao templo de A-Ma (templo da Barra) vinham sem tradutor capaz. O vosso capitão deve-se ter dirigido a algum pescador que remendava redes à beira-mar e perguntou-lhe “como se chama isto aqui?” o pescador, que não entendia português, respondeu-lhe “hmmm tchi nei kóng mât kâu”. Traduzindo com um alerta para o vernáculo, o homem tinha respondido “não sei que c...... estás a dizer”. E o capitão entendeu que a terra se chamava Macau. Com efeito, de “mât kâu” para Macau vai apenas um t só perceptível para quem domine o cantonense.
Sorri e ele olhou em frente, talvez imaginando se eu estaria embaraçado. O sorriso passou a uma gargalhada quando me lembrei do inverso do que Freud tinha dito: “sabem, às vezes um charuto é apenas um charuto”. Por outras palavras, tantas são as vezes que a verdade está à frente dos nossos olhos, mas por razões de erudição vamos procurar as coisas mais inverosímeis.
Macau em chinês não se chama Macau. Chama-se “Ou Mun” em cantonense e “Ao Men” em Mandarim, e significa Porta da Baía. Também tem outro nome “Hou Kóng” em Cantonense e “Hao Jing” em mandarim.
Como primeiro raciocínio imediato posso dizer que a evolução da multi-milenar escrita chinesa como que se cristaliza a partir do século 2 d.C., pelo menos há dois mil anos que não se alterou, tirando uma simplificação ocorrida no Continente para que toda a população pudesse saber ler e escrever.
Assim, um manuscrito com dois mil anos pode ser lido por qualquer um, ao contrário do Ocidente. Então, da mesma forma, quer a “língua comum” ou Mandarim, pouco ou nada terá mudado no decurso dos séculos, o mesmo sucedendo com o Cantonense e o Mandarim. O tempo, na China, tem uma outra dimensão...
Sucede que correm versões académicas de que a origem do nome de Macau vem do nome da deusa A-Ma, a protectora dos navegantes, mas mais do que isso, o académico Tang Kaijiang lista uma série de hipóteses se podem ler aqui.
Resulta que nada é conclusivo e recordo que muitas vezes a verdade está mesmo à mão de colher. A verdade pode ser prosaica, como curiosas eram as transcrições para o reino de missionários que contavam que os chineses não diziam “como está”, antes "cuidavam de saber se já tinham comido ou não", e seguia a transcrição inaudita de “chifã mesão” quando na verdade se diz “sek-a fán mei-aa”.
Não custa a crer que os relacionamentos culturais desse tempo, entre dois países e línguas tão distantes geograficamente possa estar cheias de equívocos.
Tal como nos negócios da chamada “China Trade” em Guangdong do séc. XIX os fabricantes de mobílias enchiam os móveis de entalhes decorativos porque supunham que era disso que os europeus gostavam. Estes achavam que aquilo era trabalho tipicamente chinês. Os chineses, para si, usavam móveis de grande simplicidade a pedir meças à Bauhaus.
Assim, em jeito de remate, pergunto-me: se isto não é uma estória de palavras, o que será?




