Saturday, March 27, 2021

UMA ESTÓRIA DE PALAVRAS

 
1 Professor Zhao Wan Fang  2 Director dos Serviços de Cultura

Ao recuperar a fotografia que ilustra esta pequena estória, saltaram-me da sombra algumas personagens que intervieram no evento.

Em primeiro lugar, o professor Zhao Wen Fang (em cantonense Chio Man Fong) foi colocado no Museu Luís de Camões sem que eu o tivesse solicitado.

Não me opus, preferi estudar o personagem. Tinha um rosto de feições patrícias do Norte, comparável, por exemplo, a Zhou En Lai, ministro dos Negócios Estrangeiros da China.

Aos poucos fui sabendo que tinha sido expurgado durante a Revolução Cultural porque os intelectuais eram burgueses.

Zhao, a mulher e a filha conseguiram chegar até Macau, e alma caridosa que lhe reconhecia mérito e conhecimento, em deliberação camarária, conseguiu que o destacassem para Conservador-Adjunto numa altura em que a língua portuguesa era a oficial, coisa que o professor Zhao, que não falava o cantonense, estava longe de falar. 

Ei-lo em Macau, no meu Museu, aprendendo novos hábitos e costumes, um gabinete só para ele. Certa vez, tendo-se desentendido com Wong Chan Fâi, o carpinteiro, que era mestre de Kung Fu, natural de San Wui, bateu-me à porta e, com ele, arrastava uns quinze funcionários, incluindo o carpinteiro. Vinha dar conta de que o carpinteiro Wong lhe tinha desobedecido e que era fundamental, imperioso, que todos os funcionários se unissem na obediência a mim, para que o Museu singrasse. Prontamente detectei os tiques e os hábitos que trazia. Aquilo ameaçava tornar-se num comício. Prontamente mandei saír toda a gente, e armado de muita paciência, fui-lhe dizendo que em Macau não era assim que se resolviam as coisas e que falava com ele em particular para não lhe tirar a face, coisa que os chineses têm na maior conta, porque a face se lhes colou ao ego, ou, se se quiser, face e ego confundem-se. Explicado o assunto, o professor Zhao, entre o contrariado e o espantado lá ia murmurando hao de, hao-hao, que sim. E lá se foi, para os seus manuais e caligrafia que praticava. Tinha um quê de irrequieto o professor, em vez da circunspecção que seria de esperar de um académico.

Certo dia, por volta de 1983, entendi que seria importante visitar Cantão, em chinês Guangzhou, e prontamente, o nosso professor tratou de escrever para a direcção dos Serviços de Cultura de Guangzhou de que resultou a nossa ida à cidade das Cinco Cabras. 


Monumento em granito das cinco cabras, símbolo de Guangzhou

A viagem naquela altura não se comparava àquela que hoje se faz. De qualquer modo fomos na companhia do professor Zhao, que conhecia os hábitos do continente. 

Era uma China muito diferente daquela que hoje existe. Deng Xiao Ping estava prestes a aplicar o seu sábio princípo de um País, Dois Sistemas, que tão bons frutos iria dar a toda a China. 

Instalados num hotel da capital da província de Guangdong (Cantão), fomos recebidos na manhã do dia seguinte pelo director dos Serviços de Cultura de Guanzhou e alguns quadros superiores.

Após a tradicional troca de amabilidades, na sede dos Serviços que ficava numa antiga escola, com um pátio enorme onde foi proclamada uma revolta na dinastia Qing  (1644-1911), foram-nos explicadas as competências e objectivos dos Serviços de Cultura. O Director era de Xantung, no Norte. Sempre fora assim desde há séculos. Sendo um país imenso, os governadores e outros dirigentes eram nomeados para regiões distantes para evitar compadrios, e o mais que se supõe. 

Este director vestia o traje que vinha directamente da revolução republicana, depois popularizado por Mao Zedong. Falava um cantonense com uma cerrada pronúncia da sua terra natal, porquanto o Putong Huá, o mandarim, é que era e é a língua comum a toda a China, inundada de dialectos e de 56 minorias étnicas.

Terminado o almoço que nos foi oferecido, fomos passear para o dito pátio gigante, altura em que o referido director me toma pelo braço e se afasta mais dos restantes, minha Mulher incluída.

Então, fala-me da palavra Macau. Diz-me que a gente de Guangdong é grosseira, que em cada 3 palavras 4 são palavrões, e que o dialecto não ajudava nada. E então os pescadores, aquilo não era linguagem de gente.

“Sabe” disse-me com um sorriso, “quando os portugueses aportaram ao templo de A-Ma (templo da Barra) vinham sem tradutor capaz. O vosso capitão deve-se ter dirigido a algum pescador que remendava redes à beira-mar e perguntou-lhe “como se chama isto aqui?” o pescador, que não entendia português, respondeu-lhe “hmmm tchi nei kóng mât kâu”. Traduzindo com um alerta para o vernáculo, o homem tinha respondido “não sei que c...... estás a dizer”. E o capitão entendeu que a terra se chamava Macau. Com efeito, de “mât kâu”  para Macau vai apenas um t só perceptível para quem domine o cantonense.

Sorri e ele olhou em frente, talvez imaginando se eu estaria embaraçado. O sorriso passou a uma gargalhada quando me lembrei do inverso do que Freud tinha dito: “sabem, às vezes um charuto é apenas um charuto”. Por outras palavras, tantas são as vezes que a verdade está à frente dos nossos olhos, mas por razões de erudição vamos procurar as coisas mais inverosímeis.

Macau em chinês não se chama Macau. Chama-se “Ou Mun” em cantonense e “Ao Men” em Mandarim, e significa Porta da Baía. Também tem outro nome “Hou Kóng” em Cantonense e “Hao Jing” em mandarim. 

Como primeiro raciocínio imediato posso dizer que a evolução da multi-milenar escrita chinesa como que se cristaliza a partir do século 2 d.C., pelo menos há dois mil anos que não se alterou, tirando uma simplificação ocorrida no Continente para que toda a população pudesse saber ler e escrever.

Assim, um manuscrito com dois mil anos pode ser lido por qualquer um, ao contrário do Ocidente. Então, da mesma forma, quer a “língua comum” ou Mandarim, pouco ou nada terá mudado no decurso dos séculos, o mesmo sucedendo com o Cantonense e o Mandarim. O tempo, na China, tem uma outra dimensão...

Sucede que correm versões académicas de que a origem do nome de Macau vem do nome da deusa A-Ma, a protectora dos navegantes, mas mais do que isso, o académico Tang Kaijiang lista uma série de hipóteses se podem ler aqui. 

Resulta que nada é conclusivo e recordo que muitas vezes a verdade está mesmo à mão de colher. A verdade pode ser prosaica, como curiosas eram as transcrições para o reino de missionários que contavam que os chineses não diziam “como está”, antes "cuidavam de saber se já tinham comido ou não", e seguia a transcrição inaudita de “chifã mesão” quando na verdade se diz “sek-a fán mei-aa”.

Não custa a crer que os relacionamentos culturais desse tempo, entre dois países e línguas tão distantes geograficamente possa estar cheias de equívocos. 

Tal como nos negócios da chamada “China Trade” em Guangdong do séc. XIX os fabricantes de mobílias enchiam os móveis de entalhes decorativos porque supunham que era disso que os europeus gostavam. Estes achavam que aquilo era trabalho tipicamente chinês. Os chineses, para si, usavam móveis de grande simplicidade a pedir meças à Bauhaus.

Assim, em jeito de remate, pergunto-me: se isto não é uma estória de palavras, o que será?


Cadeira Clássica chinesa em forma de ferradura

Saturday, March 6, 2021

DO CHÁ E DAS FOLHAS

 


Já tinham passado anos desde que me dera para sair, logo de manhãzinha, num dia ventoso e gotejante, para chegar antes das oito a uma casa de chá. Já não é como antigamente. Estava ainda fechada. Pacientemente, esperei que fossem oito da manhã para que a grade de correr subisse electricamente nas suas calhas, abrindo caminho aos fregueses que, do lado de fora, esperavam. 

Como que activadas por sábia mão, as luzes foram-se acendendo, revelando ao olhar o vasto salão de cujas janelas se viam as afiadas folhas metálicas do casino em frente. 

Escolhi uma mesa e sentei-me. O silêncio era total. Os vultos dos empregados e dos clientes moviam-se silenciosamente, como que não querendo vivificar ainda o lugar. Sentado, vi como cada freguês escolhia a sua mesa, possivelmente habitual, porque não havia hesitações. 

As empregadas de cabaia curta, de um rosa avermelhado, e um rapaz que eu vira entrar por uma porta esconsa, agora vestido de verde jade e calça preta, começavam a trazer chaleiras com o chá encomendado pelos clientes. 

Tudo era, adivinhava-se, repetitivo, habitual. O modo como caminhavam por entre as mesas, os cumprimentos que trocavam, as familiaridades que alguns clientes tinham com outros, todos aguardando pacientemente a altura de encomendar. Eu já o fizera e acho que me excedera. Pelo menos nesse dia o estômago andava embrulhado. Sabia, de antemão, que o ritual eram umas boas duas horas frente a um bule de chá e um, no máximo dois pratinhos de dim sum, que não era gente abonada aquela que acordava cedo e se distraía na companhia uns dos outros. 

Observei que nenhuma das empregadas era local. Nem pelas feições, nem pela pronúncia do cantonense. Apenas o rapaz de verde falava como os locais, enquanto eu observava quão solícito era para com um velho que caminhava dobrado de lado, com uma escoliose terrível. A juventude ainda não perdera por completo o respeito pela idade. 

Fiquei-me a reflectir sobre o tempo que passou, sobre aquela mesma avenida, tão diferente que era, e no modo como todos nós vamos regressando às raízes da nossa cultura, à medida que o tempo por nós perpassa, levando as coisas mais supérfluas que fomos trazendo pelo caminho, como aderências que o tempo solta, deixando apenas o que em nós é mais genuíno e essencial. 

– Tão cedo? – a voz tornou-se instantaneamente familiar, quando a mão poisou no meu ombro. – Não esperava vê-lo aqui. 

– Zhou Yuen! – exclamei, quase com surpresa, embora nela já nada fosse surpreendente. 

– Há quanto tempo! – disse à guisa de cumprimento, enquanto me levantava para lhe oferecer uma cadeira. Sentou-se sorridente, perguntou-me que chá estava a beber e pediu que enchessem a chaleira de água, que não era preciso outra. 

– E n t ã o? – disse naquele ar suavemente prazenteiro, vestida com uma túnica de um castanho chocolate e uma saia preta. 

– Que tem feito? Nunca mais nos encontramos... 

– Pois é! – respondi-lhe, sem muita vontade de falar. 

– Às vezes sucede assim... 

– ... e de repente, eis que estamos novamente a conversar! – completou ela, sorrindo bem disposta. 

– É – continuou, depois de sorver um pouco de chá. 

– O tempo é que dá à água a cor e o sabor do chá. 

E, pensativa e filosófica, continuou: 

– Compreendi um pouco essa questão do tempo quando percebi que apressar o retardar de um compasso musical gera a discórdia harmónica. 

Olhava-me sorrindo, as duas mãos segurando a tigelinha de chá fumegante. 

– Por isso, acho que nos vamos encontrando quando o acaso o proporcionar. 

– E acredita no acaso? – perguntei sem a olhar. Zhou Yuen sorveu um golo de chá, sem pressa. 

– Não, claro que não. Tudo está escrito desde há muito... Eu estava a imaginar que este mesmo chá, que agora está quente, estará frio daqui a pouco. Nem acaso nem permanência. Tudo é impermanente. No entanto, há milhares de milhões de anos que os dias se sucedem às noites, e cada dia, cada noite são sempre diferentes. 

De novo estávamos num plano de comunicação que sempre me criara alguma perplexidade na jovem. Não era uma típica mulher chinesa. Transcendia qualquer definição, porque não lhe sabia desenhar, por inteiro, os contornos. Residia aí, nessa indefinição, o que de mais agudamente preciso existia nela. Arguta, inteligente, observadora, aberta à diferença, não parava de me espantar nas mais díspares ocasiões. 

Poisou a tigelinha do chá. Olhou para mim, sorrindo, e poisou a mão esquerda nas costas da minha mão: 

– Ah, vou-me embora. Tenho que dar aulas. Vamos ver-nos qualquer dia. Um bom dia para si. 

O sorriso mantinha-se, sincero, amistoso, enquanto a silhueta da jovem se formava à medida que se afastava. Fiquei a observá-la, vestida como estava, sem se preocupar com modas. Havia no que vestia uma elegância intemporal, que a distinguia fisicamente, complementando o que ela era no resto. 

Confesso que fiquei aliviado por ela se ter ido embora. Àquela hora da manhã não estava muito virado para falar do tempo, desse que é inexorável, talvez porque já sentisse o seu peso. 

Monday, February 1, 2021

YIN


A sombra constitui, na sua essência, a imaterial projecção de um corpo iluminado, espécie de Yin do Yang, o lado frio e obscuro que, se por vezes apetece, é negrume onde habitam fantasmas. Daí que a cegueira se conote com as sombras, onde tudo parecerá pardo para aquele que fisicamente vê. Porém a vista apenas enxerga o ilusório visível, o mundo das imagens que hoje, em catadupas, povoam as mentes de quase todos.

Hui Ming Yao não vê porque viu demais. Conheci-o sentado, olhando-me fixamente no Largo de São Domingos. O seu olhar não se envergonhava de se fixar em mim. Só percebi que era cego porque, ao saír da linha de visão, o seu olhar permanecera fixo. Foi a primeira lição de humildade que, naquele dia, Hui me deu sem sequer nos conhecermos. 

Hui Ming Yao nasceu em Nanjing, em 1925, pouco antes de a sua cidade natal se ter transformado em capital por vontade dos nacionalistas, que iam perdendo o controlo do país em toda a linha. Hui viria a comentar à parte que Chiang e os seus, eram um bando de pomposos cobardes que fugiam dos japoneses a maior parte do tempo, cuidando apenas de si mesmos e arrastando consigo tudo o que podiam. Pouco amor pelo país, muito pela vida, comentário que a história regista deixando à interpretação do futuro as revelações que inevitavelmente vêm ao de cima. 

Em meados de 1937, das duzentas e cinquenta mil almas que habitavam a cidade dez anos antes, a população tinha aumentado para um milhão, a maior parte fugida, desde 1931, dos exércitos japoneses. 

Em 11 de Novembro de 1937, após a ocupação de Xangai, as tropas nipónicas avançaram de diferentes direcções sobre Nanjing. A 9 de Dezembro desse ano os japoneses lançam um ataque massivo sobre a cidade, e a 12 as tropas chinesas nacionalistas decidem retirar-se para a outra margem do Yangtze, desprotegendo a então capital. No dia seguinte o terror começava a instalar-se nos habitantes, com a entrada de duas divisões do exército invasor, uma pela porta Guang Hua e outra pela porta Tai Ping.

Hui Min Yao comentava o que eu já sabia: que o militarismo nipónico tinha ido beber de novo às suas origens, à casta dos arrogantes samurai que maltratavam o seu próprio povo, entretidos em guerras, conspirações e jogos de poder, enquanto o camponês ou o mercador eram mortos por discricionário capricho dessa gente. 

Pela tarde do dia 13 de Dezembro de 1937, duas flotilhas, subindo e descendo o Yangtze, consumam a ocupação da cidade. Nas seis semanas seguintes iria iniciar-se um préstito de barbárie a que o pequeno Yao iria assistir. De fuzilamentos a todo o tipo de execuções. O pai fora também arrebanhado, suspeito de resistente. Depois do jovem ter sabido da mãe, violada até à morte, assistiu à decapitação do pai. Um último olhar de preocupação pelo filho, e o sabre ceifa do corpo a cabeça que cai com um baque surdo, o sangue das aortas jorrando, os soldados de baioneta festejando mais uma proeza do chefe. Muitos mais se seguiriam, alguns de crianças da sua idade, mas o que vira fora demais e, como uma benção do céu, os olhos de Yao deixaram de ver, assim sem aviso. 


Subitamente, aos 13 anos, Hui Ming Yao cegara sem que lhe tocassem, recusa de ver mais horrores que os que vira. O cheiro do sangue ia invadiando a praça, até que mão amiga o guiou gentilmente para fora do círculo dos forçados espectadores, e o conduziu sorrateiramente para lugar desconhecido. 

Diz-me que o seu benfeitor o levara ao colo ou arrastando-se pelo chão, dando-lhe do que havia para comer. Era um homem que aparentava ser forte e a quem mais tarde chamou pai. Talvez fosse camponês ou trabalhador braçal. Falavam em sussurro. Lembra-se de ter viajado numa carroça por baixo de palha e entre sacos de arroz. Ouviu o balancear do comboio e o barulho do mar, num junco. Lembra-se de, finalmente, terem chegado a Macau, de onde nunca mais saíu, e onde aprendeu a profissão de ervanário e massagista, enquanto o seu salvador e pai adoptivo trabalhara como condutor de triciclos, depois numa fábrica de panchões, e finalmente numa casa de chá. Falava o cantonense com toda a fluidez ainda que, aqui e ali, um tom qualquer ainda traísse a sua origem.  

O rosto de Hui Ming Yao, apesar da humidade de Macau, é fortemente vincado. Cada ruga é uma página, o rosto uma história. O olhar, vago para fora, quase inocente, lembra a tampa de uma caixa feita para guardar, que outras há feitas para ostentar. Conversa suavemente, numa cadência certa, que as palavras sabe-as do mundo para onde o seu testemunho o remetera, certamente povoado de repetidos fantasmas, sombras de imagens terríveis. Lembra-se claramente dos tempos duros de Macau, da fome dos anos em que os invasores rondavam bem perto. 

Disse-me que não, que nunca mais vira nada, que nem era preto nem branco o que via, apenas deixara de ter esse sentido. Via de outra forma: eram ideias, recordações, marcas que se liam noutra parte do cérebro. Contudo, a profissão que abraçara — massagens sem visão são como segredo sem boca – permitira-lhe ir conhecendo os homens. Cada músculo contraído tinha uma razão, era como boca que falasse aos seus dedos. Por vezes encontrava nódulos que lhe falavam de histórias várias  e, entretanto, foram os dedos ganhando ouvidos e tudo era claro para ele, Yao, cujos olhos se recusavam a ver. Bastas vezes escutara basófias dos clientes que os dedos desmentiam, mentiras de alcova ou de vanglória. Depois do que vira antes de cegar, nada já o espantava na condição humana. A voz recolhida, os ouvidos e dedos ouvindo histórias desiguais, que a boca sempre pode mentir, mas só a boca. Ouvia e calava como a caixa em que se tornara, limpando as mãos das imperfeições dos clientes, terminada a massagem, perguntando-se como suportava saber tanto e calar. Mas se a sua vista se tinha definitivamente cerrado ao mundo, compreendia que lhe cabia dar à sua boca e ouvidos o mesmo destino. Afinal apenas assistia, não participava.

O destino atirara-o para uma orfandade violenta e dera-lhe uma visão da parte mais negra da humanidade. Percebera que perante tal vida restava-lhe apenas a aceitação do seu destino. À noite acendia o incenso ali num cochicho da rua do Volong e sobre o modesto burro de lona onde dormia, demorava-se a recitar o amidhaba, procurando que nada do seu passado permanecesse agarrado ao presente. O resto, o resto é só Yin.