Tive já oportunidade de escrever uma vez, que muito na minha vida tem sido uma tecitura de coincidências que me limito a aceitar.De facto possuo uma velha fotografia tirada dois dias depois do meu nascimento, que mostra o comendador Kou Hó Neng visitando meus pais no Hospital de S. Rafael, acompanhado de Francisco Assis Fong, seu secretário, que falava e escrevia fluentemente português. Sempre estranhei essa fotografia, na medida em que meus pais não eram poderosos, eram professores e jornalistas e nem sequer tinham interesse no poder.
Contudo, foi essa fotografia que despertou a minha curiosidade e vontade de investigar um personagem que nunca conheci mas de quem muito ouvi falar.
Sucede que Kou Hó Neng e Fu Tak Iam eram os donos da "Tai Heng", empresa que detinha o monopólio do jogo em Macau. A história do jogo em Macau é relativamente antiga, podendo ver-se aqui um interessante artigo sobre a matéria.
Se Kou Hó Neng era proprietário de dois belíssimos edifícios, um situado na Avenida da Praia Grande e outro situado na Rua do Campo, bem defronte do Edifício dos serviços da Administração, Fu Tak Iam, cuja história foi contada pelo seu neto, quis construír residência na Avenida da República, mesmo frente ao mar, à água, símbolo de dinheiro, de prosperidade.
Fu Tak Iam, vestia-se à chinesa, a preceito, mostrando o leque, símbolo de estatuto, que o teria nas aventuras do jogo e outras lutas que o fizeram chegar à posição que detinha, e que o neto conta na biografia que escreveu do avô.
Como todo o chinês que se preza, Fu era supersticioso e a casa não foi em frente enquanto um mestre de Feng Shui 風水 (mestre geomante) não tivesse analizado as redondezas.
Quis o dito geomante, ao olhar para o mar, distinguir nas rochas, quer aquelas próximas do ténis civil, na avenida da república, quer ainda outras pequenas formações rochosas mesmo defronte do terreno da sua moradia, um sapo de pedra, que ameaçava a fortuna dos seus empreendimentos.
Fotografia actual, de minha autoria, mostrando rochas na água, na curva em frente ao Ténis Civil.
As mesmas rochas, vistas agora do lado oposto, algumas parecendo ligadas à muralha de granito.
Mais adiante, na curva seguinte, distinguem-se mais rochas, tornadas muito menos visíveis com o fecho das águas da baía. Por detr]as das árvores vê-se a residência de Fu Tak Iâm.
Vistas de mais perto, mas ainda assim semi-submersas pelas águas, o mestre de Feng Shui anteviu um sapo ameaçador.
O batráquio, capaz de dar saltos, encaminhava-se para terra e, quem sabe, não tardaria a cair em cima da residência destruindo a fortuna que ela representava, se não fossem tomadas medidas.
Eis senão que o nosso mestre geomante, congeminando a melhor defesa para o sapo, descobre no caranguejo a melhor defesa para tal ameaça. Assim, a casa tinha de ser em U, semelhando um caranguejo com as pinças. E tinha de ser toda verde, porque verde era a cor do caranguejo vivo, que morto e cozido, alaranjado, não servia. E para avivar ainda mais o crustáceo, mandou que se colocassem no topo da residência dois globos de vidro branco, isto é, os olhos que vigiariam o sapo de pedra.
Hoje todo o panorama circundante está mudado. Antes as águas era barrentas, as marés subiam e desciam, não havia carros estacionados.
De qualquer modo, ali está ela, a casa, toda verde, mas com carros bem mais próximos do que o imaginário sapo que esta cultura milenar, sujeita a subjectivas interpretações, não previu, naquele tempo em que eram mais os triciclos e as bicicletas.
Eis a casa, toda verde e branca, sem sapos mas com carros imprevistos estacionados...
Porém, por vontade expressa de Fu, toda a sociedade "Tai Heng", incluindo o Hotel Central, ficou pintada de verde, não se sabendo porém quem era o mestre geomante protagonista de tudo isto.
Sucedeu à "Tai Heng" a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, a S.T.D.M., empresa cujo rosto foi Stanley Ho, desde o início. E o contínuo recurso ao Feng Shui 風水continuou e continua, quer tenha sido no antigo Hotel Estoril, quer no Hotel Lisboa, quer ainda no Grand Lisboa.
Sucedeu à "Tai Heng" a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, a S.T.D.M., empresa cujo rosto foi Stanley Ho, desde o início. E o contínuo recurso ao Feng Shui 風水continuou e continua, quer tenha sido no antigo Hotel Estoril, quer no Hotel Lisboa, quer ainda no Grand Lisboa.
Como dizem os espanhóis: no lo creo, pero que las hay, las hay!!!
E a minha parte na história é mero acidente, que aglutina o propósito desta, pelo que me pergunto se deverei alinhar com nuestros hermanos...



