Saturday, December 1, 2018

BREVES NOTAS SOBRE LUÍS GONZAGA GOMES


Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau, em Julho de 1907, tendo aqui falecido em 1976, com menos de setenta anos.
Desde miúdo que o conheci pelos mais diversos motivos. Soube-o mais tarde, tinha sido colega de Liceu de meu Pai, ambos alunos de Silva Mendes, Camilo Pessanha, Lara Reis, numa altura em que era reitor o Dr. Borges Delgado.
Há uma fotografia que meu Pai me deixou e que mostra bem Luis Gomes, meu Pai, Camilo e Silva Mendes, tirada no ano da morte de Pessanha. Ei-la:

Uma das primeiras coincidências

Luís Gomes, ou inho Gomes, como o chamariam os amigos mais próximos, ao contrário de meu Pai, e por razões várias, não foi estudar para Portugal. Por aqui se quedou e estudou também chinês. Não sei se foi discípulo de outro professor do Liceu dessa altura, o grande coleccionador José Vicente Jorge que chefiou o Expediente Sínico.
Certo é que desde muito cedo manuseei e li livros seus, da "Colecção Notícias de Macau". 
Ainda na minha meninice e juventude, a vida cultural era escassa e a maioria da população olhava essa gente com desconfiança, porquanto se interessavam por coisas que eram alheias à esmagadora maioria.
As fotografias deixadas por meus pais testemunham que nos anos pós-guerra estes se reencontraram com Luís Gomes através do “Notícias de Macau” que, curiosamente, havia sido fundado em 1947 por Hermann Machado Monteiro, sucedendo à “Voz de Macau” do capitão Domingos de Rosa Duque.
Hermann Machado Monteiro, o barbaças como lhe chamavam os chineses, Republicano, auto-exilara-se em Macau, vivendo no Hotel Riviera.


Luís Gonzaga Gomes era chefe de redacção do “Notícias de Macau”, pelo menos quando o frequentei como colaborador de uma página juvenil. Era uma pessoa extremamente silenciosa. Não se lhe ouviam os passos nem a voz. No entanto se foi vizinho de meus Pais, no bairro Governador Albano de Oliveira juntamente com sua irmã, Margarida Alacocq Gomes, as coincidências são mais que muitas. Além de professor de chinês do Liceu Nacional Infante D. Henrique, de Director da Biblioteca Nacional de Macau, director da Emissora de Rádiodifusão de Macau onde uma tia minha foi locutora, director do Museu Luís de Camões, director do Círculo de Cultura Musical abundantemente apoiado pelo Dr. Pedro José Lobo – um Mecenas como nunca mais houve outro, dono da Rádio Vila Verde nas versões Portuguesa e Chinesa – que era um apreciador de música, tendo ele próprio sido autor de inúmeras composições gravadas em Hong Kong, numa altura em que o Clube de Macau estaria no seu apogeu.  Aí apresentou uma opereta com uma orquestra por si financiada e com cantores locais entre os quais me recordo do senhor Américo Córdova, tinha eu sete ou oito anos e ainda não tocava com os pés no chão do Teatro D. Pedro V. 

Jantar no Restaurante Fat Sio Lau de que Hermann Monteiro era assíduo frequentador

Luís Gomes, não teve estudos universitários, mas sendo um entusiasmado melómano, tinha estudado alemão e italiano por correspondência para poder conhecer as letras das óperas de que tanto gostava. Como se isso não bastasse, a sua posição de chefe de redacção permitiu-lhe publicar na "Colecção Notícias de Macau" as obras de Manuel da Silva Mendes e também as suas, que muito merecimento tinham numa altura em que a aridez cultural de Macau era quebrada pela tertúlia do “Notícias de Macau” e pouco mais. Tal era a aridez dessa época que alguém me confidenciou que, quando o Luís Demée e o Herculano Estorninho se sentavam na rua a pintar eram tidos como tolinhos, apesar da influência de Lara Reis e de um outro pintor posterior, passada que estava a época de Chinnery.
Ainda a esse propósito, foi novamente Pedro José Lobo quem encomendou e pagou as inúmeras aguarelas que George Smirnoff, refugiado russo e arquitecto, pintou, tendo entregue ao cuidado do Museu Luís de Camões, isto é, de Luís Gonzaga Gomes.
Posteriormente, tive oportunidade de fazer publicar reproduções de seis das suas obras e, bem assim, organizar algumas exposições das suas importantes aguarelas que fazem parte da Memória de Macau, enquanto sucessor de Luís Gomes no Museu Luís de Camões. Já neste século, comissariei a Exposição Comemorativa do seu Centenário.
Todos estes eventos estão, afinal, ligados a um pequeno grupo de pessoas que deixaram um legado. Dessa herança merece especial realce a obra de Luís Gonzaga Gomes nas suas diversas frentes. Porém também importa recordar que ainda não se escreveu uma biografia do grande Mecenas que foi o Dr. Pedro José Lobo.


O velho Casarão do "Notícias de Macau"