Sunday, September 23, 2018

A ORIGEM DO TERMO KAMIKAZE

Piloto Kamikaze no final da II Guerra Mundial



A maioria das pessoas associa o termo kamikaze aos aviões Zero da Mitsubishi que se precipitavam sobre navios americanos no Pacífico, quando o Japão tentava desesperadamente virar a derrota iminente que se daria pouco tempo depois, quando o Enola Gay lançou duas bombas atómicas contra as cidades de Hiroshima e a de Nagasaki, que mais associada está com a história dos Portugueses no extremo-oriente.

A história da humanidade está recheada de eventos, e este é mais um que talvez não seja tão divulgada. 
Os Mongóis comandados por Kublai Khan lograram conquistar a China dos Song (960 – 1279) em 1271, tendo contudo levado 8 anos até acabar com a resistência chinesa.
Pela primeira vez, uma etnia não Han conquistava o Império do Meio, e essa conquista era feita pelo neto de Genghis Khan, que herdara não apenas um grande império mas, também e sobretudo, um conjunto de tribos nómadas, exércitos que já tinham chegado às portas da Europa usando a táctica de cavalgadas rápidas. A táctica consistia na surpresa e era um guerreiro e cinco póneis, que permitiam aos mongóis surgir muito antes do tempo em que seriam esperados.
Após a conquista do Império do Meio, Kublai Khan conquistou a Coreia, que a si própria se denominava de Goryeo,  entre 1231 e 1281, tornando-a seu estado vassalo. Porém o apetite do Khan mongol parecia insaciável. O Japão era outro objectivo do Khan, já desde a segunda metade da década de 1260, tendo enviado emissários por diversas vezes, tendo os mesmos encontrado sempre, no Japão do período Kamakura (1185-1333), forte resistência a um diálogo. 
O Período Kamakura, decorreu entre 1192 a 1333, durante o qual se consolidaram as bases do feudalismo. Depois da vitória decisiva de Minamoto no Yoritomo e o clã Yoritomo sobre o clã rival dos Taira, o imperador nomeia-o Shogun (regente ou ditador militar hereditário), com o objectivo de servir o imperador. Minamoto no Yoritomo estabelece o seu shogunato em Kamakura, daí o nome do Período. Após a sua morte em 1199, no entanto, o poder real no shogunato foi exercido por membros da família Hojo que desempenharam as funções de regentes do shogun durante o remanescente período. 

Minamoto no Yoritomo

A cultura do Período Kamakura foi em grande parte definida pela ascensão da classe guerreira, que detinha virtudes marciais e os ideais de dever, lealdade e coragem como os mais elevados ideais. É neste período que o bushi (guerreiro) vao ceder progressivamente o lugar ao samurai (aquele que serve). Contudo, o Bushido, a Via do Guerreiro, irá manter o termo bushi.
A prática do ritual de suicídio por corte do baixo ventre (seppuku) e o culto da espada surgiram neste período enquanto o budismo zen, que enfatizava a disciplina, a concentração e a acção directa, influencia fortemente os guerreiros que, por essa via, passam a considerar-se mortos e, assim, não recearem a morte, antes considerando que a morte em combate seria uma elevada honra.

É neste contexto que os sucessivos repúdios dos japoneses às tentativas inicialmente pacíficas de Kublai Khan para assegurar o Japão como estado tributário levam a que, o Khan, procurando gerir o envolvimento das suas forças na Coreia, decide finalmente, em 1274 cerca de 300 juncos grandes e cerca de 500 barcos mais pequenos, transportam cerca de 23.000 guerreiros, maioritariamente mongóis, reforçados por guerreiros chineses e coreanos.

Esta formidável força desembarca na ilha de Tsushima, a meio caminho entre a Coreia e o resto do arquipélago nipónico. Oitenta guerreiros nipónicos enfrentam a invasão, mas são naturalmente derrotados e nenhum sobrevive. 
A frota seguidamente segue para Iki, outra pequena ilha da perfeitura de Nagasaki, e aí, uma força de cem guerreiros japoneses enfrenta a poderosíssima esquadra, comandada por Taira no Takakage que se suicida, não aceitando a derrota.
Os japoneses não estavam habituados a lidar com forças dessa natureza nem havia generais capazes de lidar com este tipo de forças porquanto, mesmo em batalhas, era comum um bushi saír a cavalo, gritar o seu nome, o clã a que pertencia, citar os seus feitos e desafiar inimigo de valor idêntico. Não era assim com os mongóis que crivavam de setas os bushi, que entendiam a guerra como provas de honra e heroísmo.

Ainda na zona meridional, em Kyushu, a força invasora está agora em Hakata (actualmente Fukuoka). Os japoneses, ainda do período do Kyuba-no-Michi (o arco e o cavalo) precisavam de esperar por reforços. Sucede que nessa noite, com o aproximar de um tufão, o comandante mongol manda recolher as tropas em terra. Essa tempestade faz afundar cerca de 200 juncos mongóis. Os japoneses, aproveitando-se da confusão, embarcam e abordam os juncos mongóis, mas pouco podem fazer com os seus arcos, e as suas tachi (espadas que eram ainda de uso secundário) quebram-se contra as armaduras de couro dos mongóis.
Em Torikai-Gata dá-se a batalha que ficou conhecida por esse nome, e na qual, finalmente, as forças nipónicas, sob o comando de Takezaki Suenaga, reforçadas pelos homens de Shiraishi Michiyasu, inflingem a primeira derrota nas forças mongóis. 

Takesaki Suenaga, o retrato de um guerreiro do período do Kyuba-no-Mishi (Cavalo e Arco)


O comandante mongol, vendo as suas forças exaustas, mandou-as retirar para os navios. Perante isto, os guerreiros japoneses fizeram sucessivos ataques noturnos aos navios mongóis, levando a que o comandante mongol mandasse retirar a frota, regressando ao continente. Porém, de novo um tufão destruiu quase tudo o que restava da frota, tendo muitos guerreiros mongóis morrido afogados. Terminava assim a primeira tentativa de invasão dos mongóis de Kublai Khan ao Japão.
Durante o século XIII e o XIV, os ferreiros que fabricavam as lâminas para as Tachi desenvolveram uma outra lâmina com tratamento térmico diferencial que permitiu que o lado do gume da espada ha fosse muito duro, essencialmente composto por martensite, enquanto lado oposto, mune, era composto por um aço mais macio, capaz de absorver impactos. Estava finalmente encontrada a katana.

Tachi

A SEGUNDA INVASÃO
Os japoneses não tinham ilusões de que seriam novamente invadidos. A persistência de Kublai Khan era conhecida. 
Na primavera de 1281, os mongóis enviaram duas forças separadas. De acordo com Yuanshi (as crónicas dos Yuan), uma esquadra de 900 navios transportando 17.000 marinheiros, 10.000 soldados coreanos e 15.000 mongóis e chineses partiram da Coreia, enquanto uma força ainda maior de 100.000 navegou do sul da China em 3.500 navios. Eram mais de 140.000 soldados e marinheiros. Fontes japonesas mencionam 150.000 homens na força invasora. Não existem números concretos mas, a ser verdade, seria uma invasão deveras enorme.
O plano dos mongóis pedia um ataque coordenado esmagador pelas frotas combinadas do grande Khan. A parte da frota proveniente do continente  chinês atrasou-se pela dificuldade em encontrar tripulação para o grande número de navios. A frota mongol zarpou, sofreu grandes perdas em Tsushima e voltou atrás. No verão, a frota levou Iki-shima e seguiu para Kyūshū. Numa série de escaramuças individuais, conhecidas colectivamente como a Campanha de Koan ou a "Segunda Batalha da Baía de Hakata", as forças mongóis foram levadas de volta para seus navios. O exército japonês estava em desvantagem numérica, mas havia fortalecido a linha costeira com muros de dois metros de altura, e foi capaz, com mais facilidade, de repelir os ataques que foram lançados contra ela. Por volta de 15 de Agosto, um enorme tufão, assolou as ilhas Kyushu destruindo grande parte da frota mongol. Sentindo o tufão que se aproximava, os marinheiros chineses e sul-coreanos recuaram e entraram sem êxito na Baía de Imari, onde foram destruídos pela tempestade. 

Guerreiros japoneses atacando navios mongóis

Os japoneses chamaram aos tufões que derrotaram os mongóis nas duas invasões, de Kamikaze. Kami (deuses xintoístas) e kaze (vento). Então atribuíram ao Vento Divino a destruição das frotas mongóis.
Assim sendo, no ocaso da Guerra do Pacífico, e já em controlado desespero, desenvolve-se a ideia de emular o que sucedera séculos antes. É assim que os pilotos que voluntariamente se constituiam em bombas humanas se auto-designam de Kamikaze.

Wednesday, September 12, 2018

O MESTRE DA CERIMÓNIA DO CHÁ


Quando ouves o som da água a caír na tua tigela de chá,
Lava-se a poeira na tua mente.

Introdução

Muito se tem falado dos samurai, sem contudo se ter uma ideia concreta do que realmente eram. 
Durante o período de Kyuba-no-michi (A via do arco e do cavalo), isto é, o período do Japão Clássico, que vai do período Asuka (538–710), passando pelo Período Nara (710–794) e por fim o Período Heian  (794–1185), os guerreiros chamavam-se bushi, tendo-se originado daí o Bushido, que é o código de honra que chegou aos nossos dias como a "Via do Guerreiro".
É por volta do Período Muromachi (1333–1568), que se dá o progressivo desaparecimento dos bushi, que iriam dar lugar aos samurai, cujo significado se traduz por "aquele que serve". 
Importa aqui acrescentar que o Budismo Mahayana chegou ao Japão vindo da Coreia por volta de 552 d.C. juntamente com  uma imagem de Buda Sakyamuni e diferentes textos budistas.
O Zen, por seu lado, é o desenvolvimento japonês da escola do budismo Mahayana que se originou na China como Budismo Chan, mas onde não teve grande divulgação. Enquanto os praticantes Zen acreditam que a raiz da sua via se situa na Índia, a sua ênfase na possibilidade de iluminação súbita e uma conexão próxima com a natureza é de influência chinesa. 
Chan e Zen, que significam “meditação”, enfatizam a prática meditativa individual para alcançar a auto-realização e, assim, a iluminação. Em vez de confiar em divindades poderosas, o Zen enfatiza a importância do papel de um professor, com quem o discípulo cria uma conexão coração-mente. Essa ligação entre coração e mente chama-se em japonês kôkoro, geralmente mal traduzido por "coração" que se diz shin.

Há, generalizado, o conceito de que o samurai era um homem de honra. Era-o, sim, mas para com o seu clã, o clã que servia. Porém a história do Japão é feita de guerras e traições entre clãs, que desde muito cedo remeteram o imperador para um lugar de figura decorativa, guerreando-se entre si.

É certo que o Zen e a sua prática meditativa desde a infância, ajudou os samurai a superarem o medo da morte, considerando-se mortos e, assim, obrigavam-se a cuidar de si e da sua conduta, mas apenas dentro da sua casta. É bom que se saiba que os mercadores e camponeses eram considerados seres inferiores que podiam ser impunemente mortos pelos samurai. Tiremos pois da nossa mente a generalização de que eram uns seres sobrenaturais, apesar de praticarem o estoicismo, até no seppuku, mais conhecido por hara-kiri (corte do hara) o suicídio ritual. 
Quando confrontado com a própria morte, sua mente está perfeitamente imóvel. As probabilidades, os perigos e os inimigos podem ser massivamente contra ele e ainda assim a sua concentração, tão afiada quanto a sua espada, pode derrotá-los.

A história Zen do Mestre da Cerimónia do Chá.
Tal forma de auto-controle era enfatizada por ritos de comportamento muito rígidos. Não se limita aos guerreiros do Japão, no entanto. 
Os mestres de chadô (a Via do Chá) ou cerimónia japonesa do chá, realizam as suas práticas pacíficas com a mesma concentração e foco de atenção idênticas às requeridas num combate ou duelo. 

Há vários séculos, existiu um mestre de chá ao serviço do daimyio(senhor feudal) Yamanouchi. Diz-se que nunca ninguém tinha realizado a cerimónia do chá com tamanha perfeição. O tempo e a graça de cada movimento seu, desde o desdobramento do tapete, até a colocação dos copos e a peneira das folhas verdes, representavam a própria beleza. O daimyio seu senhor, ficou tão satisfeito com o seu mestre de chadô que lhe concedeu o posto e as vestes de um samurai.
Sempre que o Senhor Yamanouchi viajava, levou no seu séquito o seu mestre de chá, para que outros pudessem apreciar a perfeição de sua arte.

 Samurai com as duas espadas ou daisho e vestido formalmente com o kamishimo do clã que serve.

Certa vez deslocou-se com a sua comitiva para a capital Edo (o antigo nome de Tóquio).
Chegados à capital, o mestre do chá e seus amigos partiram ao caír da noite para explorar o distrito dos prazeres, conhecido como Ukyio-E, o mundo flutuante. 
Numa travessa mais estreita, deram de caras com dois samurai que vinham em sentido contrário. O mestre do chá, vestido de samurai, os únicos autorizados a trazer à cinta as duas espadas ou daisho, daito para significar a espada grande ou katana e shoto a espada mais curta chamada wakizashi, procurou desviar-se mas, mesmo assim, a bainha da sua katana embateu de raspão na bainha da espada de um dos samurai que não se tinham desviado. A bainha de uma espada raspar na de outro samurai era um insulto, talvez mesmo uma provocação. O samurai de Edo, talvez toldado pelo saké, levou a mão ao seu sabre, disposto a sacá-lo e a resolver o insulto ali mesmo.
Os amigos do mestre do chá e o outro samurai intervieram. Mas apenas conseguiram que se marcasse um duelo para o dia seguinte, pois estas questões de vida e morte eram assunto deveras sério. 

O mestre do chá ficou aterrado. Apesar de levar à cintura a katana e a wakizashi, não sabia manejá-las. Iria certamente morrer e desonrar o seu senhor.

Quando os dois samurai partiram, os amigos do mestre do chá abanaram-lhe o rosto e trataram os seus nervos com sais aromáticos.  
Já numa pousada, os amigos do mestre do chá sossegaram-no. Cada um deles daria dinheiro da sua própria bolsa, e juntariam uma quantia considerável para apaziguar o outro  e fazê-lo esquecer o duelo. Se, por acaso, o samurai não estivesse satisfeito com o suborno, certamente o Senhor Yamanouchi pagaria generosamente para salvar o seu muito estimado mestre de chadô.

Porém essas palavras não animaram o mestre do chá. Este pensou na sua família e no próprio Senhor Yamanouchi, ciente de que não lhes deveria trazer nenhum motivo para se envergonharem dele.

"Não", disse então com uma firmeza que surpreendeu os seus amigos. "Tenho um dia para aprender a morrer com honra, e vou fazê-lo."

Ergueu-se e regressou sozinho para junto do Senhor Yamanouchi. Ali encontrou o seu igual na graduação, o mestre de kenjutsu, que era hábil como poucos na arte da esgrima japonesa.

"Mestre", disse, depois de ter contado a sua história, "Ensina-me a morrer como um samurai".

O mestre de kenjutsu era um homem sábio e tinha um grande respeito pelo mestre da cerimónia do chá: “Esteja descansado. Vou ensinar-lhe tudo o que necessita, mas primeiro, por favor realize a cerimónia do chá para mim." 
O mestre do chá não podia recusar este pedido. E, enquanto realizava a cerimónia, todos os traços de preocupação e medo abandonaram o seu rosto. Foi-se serenamente concentrando nas simples mas belas taças e potes, e no delicado aroma das folhas. Não havia espaço na sua mente para a ansiedade. A sua mente focou-se por inteiro no ritual.

Quando a cerimónia terminou, o mestre de kenjutsu deu uma palmada de satisfação na coxa e exclamou com prazer:
"Não há necessidade de aprender nada sobre o caminho da morte. O seu estado de espírito quando realiza a cerimónia do chá é tudo o que necessita. Quando amanhã enfrentar o seu adversário, imagine que você está prestes a servir-lhe chá. Saúde-o cortêsmente, tire o haori (sobre-quimono) dobre-o como fez agora mesmo. Enrole a cabeça em um lenço de seda e faça-o com a mesma serenidade que se prepara para o ritual do chá. 
Pegue na sua espada e segure-a bem acima de sua cabeça. Então feche os olhos e prepare-se para o combate.

Postura de kirioroshi

No dia seguinte, no local e hora aprazados, o mestre de chadô fez exactamente o que lhe fora dito. Transpirava serenidade e emanava uma paz enorme quando ergueu a espada sobre a cabeça numa postura de kirioroshi. O outro, agora já totalmente recuperado dos efeitos do saké, sentiu a enorme diferença e hesitou. O homem que vira na véspera e tinha diante de si não era o mesmo homem. 
Sentindo a tranquilidade e vendo o mestre de chadô de olhos fechados, ainda mais o assustou. O samurai de Edo pediu desculpas pelo incidente e sua reacção, e deixou o local de combate com tanta velocidade quanto a sua perdida dignidade lho permitiu.

Uma velha história Zen.