Piloto Kamikaze no final da II Guerra Mundial
A maioria das pessoas associa o termo kamikaze aos aviões Zero da Mitsubishi que se precipitavam sobre navios americanos no Pacífico, quando o Japão tentava desesperadamente virar a derrota iminente que se daria pouco tempo depois, quando o Enola Gay lançou duas bombas atómicas contra as cidades de Hiroshima e a de Nagasaki, que mais associada está com a história dos Portugueses no extremo-oriente.
A história da humanidade está recheada de eventos, e este é mais um que talvez não seja tão divulgada.
Os Mongóis comandados por Kublai Khan lograram conquistar a China dos Song (960 – 1279) em 1271, tendo contudo levado 8 anos até acabar com a resistência chinesa.
Pela primeira vez, uma etnia não Han conquistava o Império do Meio, e essa conquista era feita pelo neto de Genghis Khan, que herdara não apenas um grande império mas, também e sobretudo, um conjunto de tribos nómadas, exércitos que já tinham chegado às portas da Europa usando a táctica de cavalgadas rápidas. A táctica consistia na surpresa e era um guerreiro e cinco póneis, que permitiam aos mongóis surgir muito antes do tempo em que seriam esperados.
Após a conquista do Império do Meio, Kublai Khan conquistou a Coreia, que a si própria se denominava de Goryeo, entre 1231 e 1281, tornando-a seu estado vassalo. Porém o apetite do Khan mongol parecia insaciável. O Japão era outro objectivo do Khan, já desde a segunda metade da década de 1260, tendo enviado emissários por diversas vezes, tendo os mesmos encontrado sempre, no Japão do período Kamakura (1185-1333), forte resistência a um diálogo.
O Período Kamakura, decorreu entre 1192 a 1333, durante o qual se consolidaram as bases do feudalismo. Depois da vitória decisiva de Minamoto no Yoritomo e o clã Yoritomo sobre o clã rival dos Taira, o imperador nomeia-o Shogun (regente ou ditador militar hereditário), com o objectivo de servir o imperador. Minamoto no Yoritomo estabelece o seu shogunato em Kamakura, daí o nome do Período. Após a sua morte em 1199, no entanto, o poder real no shogunato foi exercido por membros da família Hojo que desempenharam as funções de regentes do shogun durante o remanescente período.
Minamoto no Yoritomo
A cultura do Período Kamakura foi em grande parte definida pela ascensão da classe guerreira, que detinha virtudes marciais e os ideais de dever, lealdade e coragem como os mais elevados ideais. É neste período que o bushi (guerreiro) vao ceder progressivamente o lugar ao samurai (aquele que serve). Contudo, o Bushido, a Via do Guerreiro, irá manter o termo bushi.
A prática do ritual de suicídio por corte do baixo ventre (seppuku) e o culto da espada surgiram neste período enquanto o budismo zen, que enfatizava a disciplina, a concentração e a acção directa, influencia fortemente os guerreiros que, por essa via, passam a considerar-se mortos e, assim, não recearem a morte, antes considerando que a morte em combate seria uma elevada honra.
É neste contexto que os sucessivos repúdios dos japoneses às tentativas inicialmente pacíficas de Kublai Khan para assegurar o Japão como estado tributário levam a que, o Khan, procurando gerir o envolvimento das suas forças na Coreia, decide finalmente, em 1274 cerca de 300 juncos grandes e cerca de 500 barcos mais pequenos, transportam cerca de 23.000 guerreiros, maioritariamente mongóis, reforçados por guerreiros chineses e coreanos.
Esta formidável força desembarca na ilha de Tsushima, a meio caminho entre a Coreia e o resto do arquipélago nipónico. Oitenta guerreiros nipónicos enfrentam a invasão, mas são naturalmente derrotados e nenhum sobrevive.
A frota seguidamente segue para Iki, outra pequena ilha da perfeitura de Nagasaki, e aí, uma força de cem guerreiros japoneses enfrenta a poderosíssima esquadra, comandada por Taira no Takakage que se suicida, não aceitando a derrota.
Os japoneses não estavam habituados a lidar com forças dessa natureza nem havia generais capazes de lidar com este tipo de forças porquanto, mesmo em batalhas, era comum um bushi saír a cavalo, gritar o seu nome, o clã a que pertencia, citar os seus feitos e desafiar inimigo de valor idêntico. Não era assim com os mongóis que crivavam de setas os bushi, que entendiam a guerra como provas de honra e heroísmo.
Ainda na zona meridional, em Kyushu, a força invasora está agora em Hakata (actualmente Fukuoka). Os japoneses, ainda do período do Kyuba-no-Michi (o arco e o cavalo) precisavam de esperar por reforços. Sucede que nessa noite, com o aproximar de um tufão, o comandante mongol manda recolher as tropas em terra. Essa tempestade faz afundar cerca de 200 juncos mongóis. Os japoneses, aproveitando-se da confusão, embarcam e abordam os juncos mongóis, mas pouco podem fazer com os seus arcos, e as suas tachi (espadas que eram ainda de uso secundário) quebram-se contra as armaduras de couro dos mongóis.
Em Torikai-Gata dá-se a batalha que ficou conhecida por esse nome, e na qual, finalmente, as forças nipónicas, sob o comando de Takezaki Suenaga, reforçadas pelos homens de Shiraishi Michiyasu, inflingem a primeira derrota nas forças mongóis.
Takesaki Suenaga, o retrato de um guerreiro do período do Kyuba-no-Mishi (Cavalo e Arco)
O comandante mongol, vendo as suas forças exaustas, mandou-as retirar para os navios. Perante isto, os guerreiros japoneses fizeram sucessivos ataques noturnos aos navios mongóis, levando a que o comandante mongol mandasse retirar a frota, regressando ao continente. Porém, de novo um tufão destruiu quase tudo o que restava da frota, tendo muitos guerreiros mongóis morrido afogados. Terminava assim a primeira tentativa de invasão dos mongóis de Kublai Khan ao Japão.
Durante o século XIII e o XIV, os ferreiros que fabricavam as lâminas para as Tachi desenvolveram uma outra lâmina com tratamento térmico diferencial que permitiu que o lado do gume da espada ha fosse muito duro, essencialmente composto por martensite, enquanto lado oposto, mune, era composto por um aço mais macio, capaz de absorver impactos. Estava finalmente encontrada a katana.
Tachi
A SEGUNDA INVASÃO
Os japoneses não tinham ilusões de que seriam novamente invadidos. A persistência de Kublai Khan era conhecida.
Na primavera de 1281, os mongóis enviaram duas forças separadas. De acordo com Yuanshi (as crónicas dos Yuan), uma esquadra de 900 navios transportando 17.000 marinheiros, 10.000 soldados coreanos e 15.000 mongóis e chineses partiram da Coreia, enquanto uma força ainda maior de 100.000 navegou do sul da China em 3.500 navios. Eram mais de 140.000 soldados e marinheiros. Fontes japonesas mencionam 150.000 homens na força invasora. Não existem números concretos mas, a ser verdade, seria uma invasão deveras enorme.
O plano dos mongóis pedia um ataque coordenado esmagador pelas frotas combinadas do grande Khan. A parte da frota proveniente do continente chinês atrasou-se pela dificuldade em encontrar tripulação para o grande número de navios. A frota mongol zarpou, sofreu grandes perdas em Tsushima e voltou atrás. No verão, a frota levou Iki-shima e seguiu para Kyūshū. Numa série de escaramuças individuais, conhecidas colectivamente como a Campanha de Koan ou a "Segunda Batalha da Baía de Hakata", as forças mongóis foram levadas de volta para seus navios. O exército japonês estava em desvantagem numérica, mas havia fortalecido a linha costeira com muros de dois metros de altura, e foi capaz, com mais facilidade, de repelir os ataques que foram lançados contra ela. Por volta de 15 de Agosto, um enorme tufão, assolou as ilhas Kyushu destruindo grande parte da frota mongol. Sentindo o tufão que se aproximava, os marinheiros chineses e sul-coreanos recuaram e entraram sem êxito na Baía de Imari, onde foram destruídos pela tempestade.
Guerreiros japoneses atacando navios mongóis
Os japoneses chamaram aos tufões que derrotaram os mongóis nas duas invasões, de Kamikaze. Kami (deuses xintoístas) e kaze (vento). Então atribuíram ao Vento Divino a destruição das frotas mongóis.
Assim sendo, no ocaso da Guerra do Pacífico, e já em controlado desespero, desenvolve-se a ideia de emular o que sucedera séculos antes. É assim que os pilotos que voluntariamente se constituiam em bombas humanas se auto-designam de Kamikaze.







