Dong
Nestes dias, que vão arrefecendo lentamente, existe no ar uma ambiência luminosa que lhes dá uma magia suplementar, com o sol, visto pela peneira de nuvens vagamente cinzentas, espalhando uma luz quase dourada, mais branda que nos dias de canícula, em que o sol impiedosamente dardeja.
Por vezes, ainda que escassa, a neblina abate-se, tornando a própria navegação difícil. É uma névoa que se adensa à superfície da água, ocorrendo o mesmo em terra.
Imaginar-se-á, porventura, que mais se irá escrever à guisa de introdução, porém algo me diz que mais nada deverei acrescentar à ambiência, não vá haver saturação, que tudo o que é demasia tende para o desequilíbrio.
Certo é que achei a névoa matutina convidativa e dei comigo num gratificante caminhar pela cidade, atravessando o Largo do Senado, parando a olhar a belíssima fachada de S. Domingos e a recordar o rigor dos desenhos de Chinnery, onde vendilhões se agrupam em busca de fregueses.
À direita fica a ruazinha onde ainda existe a barbearia Xangai, que a outra, a Sanitária, há muito deu lugar a uma perfumaria por onde passo, aspirando o aroma. À esquina, corto à esquerda e entro na rua da Palha. Palmilho os primeiros dez metros olhando satisfeito em redor quando, por debaixo dos meus pés, me falta o empedrado, e quase caio no piso de terra. Estranho percalço que mais se acentua quando reparo que a calçada de granito se vai como que esboroando da sua tecitura, cedendo lugar à terra batida. Mais além, onde a rua tem pretensões a largo, sai estranho vapor do chão, que me deixa na dúvida se a névoa era vapor ou se, pelo contrário, era vapor querendo ser atmosfera. Hesitei em continuar, porquanto tais estranhas obras poderiam conduzir a outras mais complexas, a ocorrer já na curva onde nasce a rua de S. Paulo. E nesta hesitação, com os pés buscando melhor apoio, ouvi por detrás de mim uma voz vagamente familiar, saudando-me:
– ah, ni hau ma. Hang xiao jian.
Shi Wei Ming surgiu-me nas costas, o mesmo aspecto seco e austero de quem levara uma vida dormindo em tarimbas e comendo com frugalidade. Envergava um tang zhuang escuro e coçado, as mangas ligeiramente dobradas para cima, e carregava um pequeno molho de couves atadas por um fio, dançando da extremidade de um dos dedos da mão esquerda.
–Onde vai? – perguntou-me, que é cortesia grande cuidar de saber para onde se vai e se já comemos ou não, coisa simpática e que ocorre conforme a hora, demonstrando ao outro que os seus assuntos interessam, coisa que as convenções ocidentais rejeitam.
–Eu ia tentar encontrá-lo para renovar a conversa, mas com este estranho nevoeiro, estava hesitante. Shi Wei Ming sorriu vagamente, cofiando a barba branca, e pegando no meu braço começou a andar tranquilamente.
– Tian shi é apenas uma das diversas dimensões do tempo. Sabe, nós estamos demasiadamente ligados às coisas que conhecemos porque nos inspiram segurança. O que é uma neblina no Outono?
Caminhava ao seu lado, esquecido já dos transtornos do piso, que entretanto o instinto cuidava disso e os passos de Shi Wei Ming pareciam familiarizados com tão insólito chão. Atravessámos a parte da neblina que era mais densa. Não sabendo se era vapor, sustive a respiração enquanto levava o lenço ao rosto. Ouvia ao lado os passos do meu companheiro de trajecto e distinguia-lhe a silhueta, como se ambos navegássemos junto à costa. A neblina permanecia espessa, embora os cuidados que ainda tinha com o andar se fossem pouco a pouco dissolvendo. Tinham removido toda a calçada e, se bem que eu não ande muito a par das notícias, nada me indicara estarem por aqui a decorrer obras.
– Então retiraram o empedrado? – perguntei, quando já subíamos a discreta rampa da rua de S. Paulo.
– Não se preocupe – retrucou o velho com ar tranquilo. – Vamos aonde nos encontrámos da outra vez.
A neblina ia-se dissolvendo e, para meu máximo espanto, estávamos num carreiro, em pleno descampado, vendo-se bem próximo um monte pouco elevado, umas rochas graníticas entre a vegetação escassa, e mais nada. Estaquei, siderado. Levei um dedo à boca mordendo-o, pois talvez assim acordasse deste estranho sonho. Os dentes morderam o suficiente para acordar, contudo ali continuava. Levei a mão ao bolso para puxar de um cigarro, e o maço lá estava, vermelho. Acendi um e aspirei lentamente, olhando estranhamente para tudo aquilo, como se, de repente, tivessem extirpado a paisagem de todas as construções. Havia que reconstruir tudo lidando com a resistência da incredulidade.
– Está a estranhar a paisagem? – perguntou Shi Wei Ming que tinha parado mais à frente e me olhava com um sorriso entre o irónico e o enigmático. – Não estranhe que as coisas mudem. Tudo muda, apenas o essencial permanece. Se lhe é dado atravessar o tempo, aceite isso.
E recomeçou a andar pelo carreiro. Olhei para a esquerda e, lá em baixo, ao fundo, o braço do delta corria silencioso e imperturbável. Distinguia perfeitamente a silhueta próxima do meu companheiro, caminhando ao sabor do carreiro. Na elevação, que por hábito chamarei de monte, dois cães vadios cheiravam ervas em busca das que mais lhe convinham para uma qualquer purga, enquanto no topo pude ainda distinguir uma silhueta longínqua que acabaria por desaparecer. Caminhávamos em silêncio, o meu feito mais de contínua observação do que me era dado ver.
Caminhávamos agora pelo trilho que seria anterior à rua de S. Paulo e que se fundiria a meio com a rua de Santo António. Ao longe surgia uma pequena elevação de vegetação que se ia adensando.
– Estamos a chegar – disse sorrindo Shi Wei Ming. Para mim era como habitar o útero da cidade, vogar dentro das suas águas fetais, virgens ainda das memórias que se iriam construir. O rio, à esquerda, estava mais próximo, o declive era maior, e por ali estavam duas pequenas barracas, de gente humilde que se dedicaria a algo que não consegui discernir entre a vegetação, porquanto Shi estugava agora o passo.
Havia por entre o matagal um outro carreiro que eu não descortinara. Fomos caminhando no meio de bambuais, fetos e algumas árvores que se curvavam entre si, formando como que um túnel. Iniciámos uma subida que circundava uma pequena elevação e, voltando a descer, demos com uma enorme rocha que formava como que uma mesa gigante. Voltando costas ao rio, que continuava visível, uma rampa suavizada por alguns pedregulhos que alguém aí pusera conduzia a uma dong escura. Shi Wei Ming desceu os primeiros degraus e, virando-se, sossegou-me:
– Vem, é bem possível que seja interessante. Entrava-se na gruta dobrando a cabeça que a pedra era em cunha, quase uma pirâmide invertida. Deixei que os olhos se habituassem ao escuro e que uma bruxuleante luz suave e alaranjada vinda do fundo me permitisse, enfim, descortinar os degraus escavados ao longo da parede rochosa. Desci a espiral de degraus que contornavam a quase circular formação rochosa. Dir-se-ia uma tigela invertida, onde ao centro, resguardadas entre pedras, ardiam brasas. Shi desaparecera do meu campo de visão. Pude descortinar, saindo do escuro, o vulto de um homem de meia-idade, baixo, vestido com um gibão que fora de tecido lavrado e uns calções verdes escuros com brifantes sobre meias sujas e rotas. Encaminhou-se para o centro, olhando-me uma única vez com ar triste. Baixou-se, mergulhou a mão direita nas brasas e, erguendo-se, caminhou para mim. O rosto não indiciava qualquer dor. A luz do carvão incandescente dava-lhe um ar de grande dignidade, enquanto as mãos se estendiam na minha direcção. Pensei em Shi Wei Ming e em tudo aquilo, enquanto, hesitante, estendia a mão perante gesto tão irrecusável. Verteu na minha mão aquela incandescência que, de imediato, se transformou em gelo. Fiquei a ver os pedaços do oposto derreterem-se e escorrerem para o pó da terra. Ergui de novo o olhar para encontrar à minha frente Shi Wei Ming. Ainda balbuciei um “mas onde é que se meteu?”, mas o velho, com suave firmeza, disse:
– Vem!
Havia uma abertura coberta por um esfarrapado tecido. Shi afastou a cortina e sinalizou para que eu entrasse. A porta dava para um exterior protegido por tábuas e esteiras, espécie de barraca cujo tecto era coberto por folhas de bananeira e palmeira, tudo amontoado, por onde penetravam, dos interstícios, fracos veios de luz.
Se pudéssemos chamar aquilo de aposento, diria que à minha frente havia uma mesa de madeira negra, espessa. Sobre o tampo encontrava-se um púcaro em faiança e uma tigela, e mais além um livro mal acabado com a carneira a soltar-se. Ao fundo, uma espécie de catre onde se deitava uma mulher de aspecto modesto e desgrenhado. Do lado de cá do leito estava sentada uma figura vestida de negro, a perna esquerda alçada sobre o catre, a cabeça inclinada para o cachimbo de água, que eu juraria ser o mesmo que vira da primeira vez nas mãos de Shi Wei Ming, A figura ergueu a cabeça para expelir uma baforada de fumo e, parecendo por fim dar pela minha presença, olhou-me:
– Ah, chegasteis enfim.
A voz era cava, rouca mesmo. O cabelo era quase negro, algumas ligeiras brancas, a barba abandonada. O rosto ostentava uma cicatriz mal curada que lhe cortava a sobrancelha direita sobre a testa e lhe descia até quase ao nariz. O olho era uma terrível mistura de tecido cicatricial. Olhei o personagem em silêncio, observando-lhe o ar sofrido mas desafiador. Ergueu-se lentamente do leito, o gibão negro aberto, calções rotos. Arrastou-
-se com o cachimbo para a mesa, sentando-se no tampo, os pés sobre o banco.
– Perdoar-me-eis de nada vos poder oferecer. Eis tudo o que possuo. É pouco e é muito, que a má fortuna me persegue por eu de mim ter este modo de ser que tão pouco agrado faz junto de quem me poderia valer. Não fosse este velho amigo, talvez já de todo a esperança me tivesse abandonado. Não que espere algo, não sei que esperar, apenas algo me mantém preso a esta vida. Interrompeu-se olhando o fumo e, através dele, parecia curioso do que via entre as frinchas do barraco.
– Não vos direi o meu nome porque pouco importa, e se desta terra sou estrangeiro recente, vós, que vindes de um outro tempo, dizei-me o que me resta de esperança e vida, que o velho que vos trouxe pouco fala da nossa língua...
O abatimento era notório. Contudo o que me inspirava espanto era a sua tácita aceitação da minha condição de estranho do seu tempo, era o seu diálogo com um futuro longínquo. Acendi outro cigarro perante a sua silenciosa expressão de espanto.
– Não precisa de me dizer o seu nome, é patente que eu o reconheço. A história dar-lhe-á lugar de proeminência máxima, ainda que a sua presença aqui se conteste.
Ouvia-me com expressão atenta, concentrada. Bebia as palavras num português que não era o seu, sem os formalismos do tempo.
– Ha! – escarneceu – proeminência máxima do degredo e do desprezo, apesar de trazer sempre, junto ao coração, a memória da espada numa mão e a pena na outra.
Quase berrava.
– Não, nunca aqui estive, que tudo é fruto do pão que não como, e que o demo amassou.
Bebeu da tigela uns goles, a mulher virou-se no catre, agora semi-desperta, olhando passiva a cena.
- Sabei que per a Pátria dei uma vista e alguma dor e, se o amor me foi consolo bastas vezes, quem ousa punir os amores dum pobre soldado daqueles de el-rei, que faz dos seus bastardos nobreza vil sob a capa da piedade eclesial? Ah, mas dirão certamente que, com lisonja, ajuda peço, como se da miséria injusta de que padeço me desse a firmeza que a lisonja precisa, para que tal possa ser. Mas dizei mais senhor, que de tanta lonjura vindes.
O que relato é forma mais que imperfeita do modo como o personagem falava. Se algo há que mais constrange é revelar a alguém o seu futuro, mesmo que tudo isto não passe de um estranho sonho, e se sonho é, apesar de mordido o dedo e fumados dois cigarros, é sonho persistente que não se pode combater. Deixo-me pois envolver sem contestar.
– De que vale saber o futuro se ele já é passado, e mesmo quando ainda futuro já está escrito, como a ode que ireis finalizar...
Deu um salto para o chão, o ânimo parecia renovado.
– Terminarei o que trago na alma e neste corpo enfraquecido, este Canto que me não esmorece a voz nem a pena, aaaah. Será terminado? Será terminado?
O entusiasmo apossava-se do personagem.
– E publicado, será publicado? Fazei-me essa mercê, senhor. Apenas esta mercê. Talvez o Santo Ofício o permita.
Abria o envelhecido livro de carneira solta, folheando finas folhas de papel chinês de mistura com outras de diferente origem, sabe-se lá quem lhas teria obtido. Um frenesim perpassava-lhe a cabeça e todo o ser.
– Papel, traz-me mais papel – gritava para a mulher deitada.
Deixei que a agitação passasse:
– Sim, asseguro-vos que será publicado e que sereis famoso, o primeiro entre os lusos.
Olhou-me fixamente com o olho que tinha, e de rompante solta:
Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.
Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.
Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;
Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.
E saiu disparado, correndo, coxo, arrastando pela mão a mulher, que também tinta lhe faltava.
Não lhe disse que o iriam endeusar, coroar de louros, instituí-lo. Os grandes homens são meras sombras de si próprios. Não lhe falei em escudos com a sua efígie em tempo de Euros, nem que isso de provedor de mortos e defuntos, talvez o fosse, mas não ainda no seu tempo.