Saturday, December 1, 2018

BREVES NOTAS SOBRE LUÍS GONZAGA GOMES


Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau, em Julho de 1907, tendo aqui falecido em 1976, com menos de setenta anos.
Desde miúdo que o conheci pelos mais diversos motivos. Soube-o mais tarde, tinha sido colega de Liceu de meu Pai, ambos alunos de Silva Mendes, Camilo Pessanha, Lara Reis, numa altura em que era reitor o Dr. Borges Delgado.
Há uma fotografia que meu Pai me deixou e que mostra bem Luis Gomes, meu Pai, Camilo e Silva Mendes, tirada no ano da morte de Pessanha. Ei-la:

Uma das primeiras coincidências

Luís Gomes, ou inho Gomes, como o chamariam os amigos mais próximos, ao contrário de meu Pai, e por razões várias, não foi estudar para Portugal. Por aqui se quedou e estudou também chinês. Não sei se foi discípulo de outro professor do Liceu dessa altura, o grande coleccionador José Vicente Jorge que chefiou o Expediente Sínico.
Certo é que desde muito cedo manuseei e li livros seus, da "Colecção Notícias de Macau". 
Ainda na minha meninice e juventude, a vida cultural era escassa e a maioria da população olhava essa gente com desconfiança, porquanto se interessavam por coisas que eram alheias à esmagadora maioria.
As fotografias deixadas por meus pais testemunham que nos anos pós-guerra estes se reencontraram com Luís Gomes através do “Notícias de Macau” que, curiosamente, havia sido fundado em 1947 por Hermann Machado Monteiro, sucedendo à “Voz de Macau” do capitão Domingos de Rosa Duque.
Hermann Machado Monteiro, o barbaças como lhe chamavam os chineses, Republicano, auto-exilara-se em Macau, vivendo no Hotel Riviera.


Luís Gonzaga Gomes era chefe de redacção do “Notícias de Macau”, pelo menos quando o frequentei como colaborador de uma página juvenil. Era uma pessoa extremamente silenciosa. Não se lhe ouviam os passos nem a voz. No entanto se foi vizinho de meus Pais, no bairro Governador Albano de Oliveira juntamente com sua irmã, Margarida Alacocq Gomes, as coincidências são mais que muitas. Além de professor de chinês do Liceu Nacional Infante D. Henrique, de Director da Biblioteca Nacional de Macau, director da Emissora de Rádiodifusão de Macau onde uma tia minha foi locutora, director do Museu Luís de Camões, director do Círculo de Cultura Musical abundantemente apoiado pelo Dr. Pedro José Lobo – um Mecenas como nunca mais houve outro, dono da Rádio Vila Verde nas versões Portuguesa e Chinesa – que era um apreciador de música, tendo ele próprio sido autor de inúmeras composições gravadas em Hong Kong, numa altura em que o Clube de Macau estaria no seu apogeu.  Aí apresentou uma opereta com uma orquestra por si financiada e com cantores locais entre os quais me recordo do senhor Américo Córdova, tinha eu sete ou oito anos e ainda não tocava com os pés no chão do Teatro D. Pedro V. 

Jantar no Restaurante Fat Sio Lau de que Hermann Monteiro era assíduo frequentador

Luís Gomes, não teve estudos universitários, mas sendo um entusiasmado melómano, tinha estudado alemão e italiano por correspondência para poder conhecer as letras das óperas de que tanto gostava. Como se isso não bastasse, a sua posição de chefe de redacção permitiu-lhe publicar na "Colecção Notícias de Macau" as obras de Manuel da Silva Mendes e também as suas, que muito merecimento tinham numa altura em que a aridez cultural de Macau era quebrada pela tertúlia do “Notícias de Macau” e pouco mais. Tal era a aridez dessa época que alguém me confidenciou que, quando o Luís Demée e o Herculano Estorninho se sentavam na rua a pintar eram tidos como tolinhos, apesar da influência de Lara Reis e de um outro pintor posterior, passada que estava a época de Chinnery.
Ainda a esse propósito, foi novamente Pedro José Lobo quem encomendou e pagou as inúmeras aguarelas que George Smirnoff, refugiado russo e arquitecto, pintou, tendo entregue ao cuidado do Museu Luís de Camões, isto é, de Luís Gonzaga Gomes.
Posteriormente, tive oportunidade de fazer publicar reproduções de seis das suas obras e, bem assim, organizar algumas exposições das suas importantes aguarelas que fazem parte da Memória de Macau, enquanto sucessor de Luís Gomes no Museu Luís de Camões. Já neste século, comissariei a Exposição Comemorativa do seu Centenário.
Todos estes eventos estão, afinal, ligados a um pequeno grupo de pessoas que deixaram um legado. Dessa herança merece especial realce a obra de Luís Gonzaga Gomes nas suas diversas frentes. Porém também importa recordar que ainda não se escreveu uma biografia do grande Mecenas que foi o Dr. Pedro José Lobo.


O velho Casarão do "Notícias de Macau"

Sunday, September 23, 2018

A ORIGEM DO TERMO KAMIKAZE

Piloto Kamikaze no final da II Guerra Mundial



A maioria das pessoas associa o termo kamikaze aos aviões Zero da Mitsubishi que se precipitavam sobre navios americanos no Pacífico, quando o Japão tentava desesperadamente virar a derrota iminente que se daria pouco tempo depois, quando o Enola Gay lançou duas bombas atómicas contra as cidades de Hiroshima e a de Nagasaki, que mais associada está com a história dos Portugueses no extremo-oriente.

A história da humanidade está recheada de eventos, e este é mais um que talvez não seja tão divulgada. 
Os Mongóis comandados por Kublai Khan lograram conquistar a China dos Song (960 – 1279) em 1271, tendo contudo levado 8 anos até acabar com a resistência chinesa.
Pela primeira vez, uma etnia não Han conquistava o Império do Meio, e essa conquista era feita pelo neto de Genghis Khan, que herdara não apenas um grande império mas, também e sobretudo, um conjunto de tribos nómadas, exércitos que já tinham chegado às portas da Europa usando a táctica de cavalgadas rápidas. A táctica consistia na surpresa e era um guerreiro e cinco póneis, que permitiam aos mongóis surgir muito antes do tempo em que seriam esperados.
Após a conquista do Império do Meio, Kublai Khan conquistou a Coreia, que a si própria se denominava de Goryeo,  entre 1231 e 1281, tornando-a seu estado vassalo. Porém o apetite do Khan mongol parecia insaciável. O Japão era outro objectivo do Khan, já desde a segunda metade da década de 1260, tendo enviado emissários por diversas vezes, tendo os mesmos encontrado sempre, no Japão do período Kamakura (1185-1333), forte resistência a um diálogo. 
O Período Kamakura, decorreu entre 1192 a 1333, durante o qual se consolidaram as bases do feudalismo. Depois da vitória decisiva de Minamoto no Yoritomo e o clã Yoritomo sobre o clã rival dos Taira, o imperador nomeia-o Shogun (regente ou ditador militar hereditário), com o objectivo de servir o imperador. Minamoto no Yoritomo estabelece o seu shogunato em Kamakura, daí o nome do Período. Após a sua morte em 1199, no entanto, o poder real no shogunato foi exercido por membros da família Hojo que desempenharam as funções de regentes do shogun durante o remanescente período. 

Minamoto no Yoritomo

A cultura do Período Kamakura foi em grande parte definida pela ascensão da classe guerreira, que detinha virtudes marciais e os ideais de dever, lealdade e coragem como os mais elevados ideais. É neste período que o bushi (guerreiro) vao ceder progressivamente o lugar ao samurai (aquele que serve). Contudo, o Bushido, a Via do Guerreiro, irá manter o termo bushi.
A prática do ritual de suicídio por corte do baixo ventre (seppuku) e o culto da espada surgiram neste período enquanto o budismo zen, que enfatizava a disciplina, a concentração e a acção directa, influencia fortemente os guerreiros que, por essa via, passam a considerar-se mortos e, assim, não recearem a morte, antes considerando que a morte em combate seria uma elevada honra.

É neste contexto que os sucessivos repúdios dos japoneses às tentativas inicialmente pacíficas de Kublai Khan para assegurar o Japão como estado tributário levam a que, o Khan, procurando gerir o envolvimento das suas forças na Coreia, decide finalmente, em 1274 cerca de 300 juncos grandes e cerca de 500 barcos mais pequenos, transportam cerca de 23.000 guerreiros, maioritariamente mongóis, reforçados por guerreiros chineses e coreanos.

Esta formidável força desembarca na ilha de Tsushima, a meio caminho entre a Coreia e o resto do arquipélago nipónico. Oitenta guerreiros nipónicos enfrentam a invasão, mas são naturalmente derrotados e nenhum sobrevive. 
A frota seguidamente segue para Iki, outra pequena ilha da perfeitura de Nagasaki, e aí, uma força de cem guerreiros japoneses enfrenta a poderosíssima esquadra, comandada por Taira no Takakage que se suicida, não aceitando a derrota.
Os japoneses não estavam habituados a lidar com forças dessa natureza nem havia generais capazes de lidar com este tipo de forças porquanto, mesmo em batalhas, era comum um bushi saír a cavalo, gritar o seu nome, o clã a que pertencia, citar os seus feitos e desafiar inimigo de valor idêntico. Não era assim com os mongóis que crivavam de setas os bushi, que entendiam a guerra como provas de honra e heroísmo.

Ainda na zona meridional, em Kyushu, a força invasora está agora em Hakata (actualmente Fukuoka). Os japoneses, ainda do período do Kyuba-no-Michi (o arco e o cavalo) precisavam de esperar por reforços. Sucede que nessa noite, com o aproximar de um tufão, o comandante mongol manda recolher as tropas em terra. Essa tempestade faz afundar cerca de 200 juncos mongóis. Os japoneses, aproveitando-se da confusão, embarcam e abordam os juncos mongóis, mas pouco podem fazer com os seus arcos, e as suas tachi (espadas que eram ainda de uso secundário) quebram-se contra as armaduras de couro dos mongóis.
Em Torikai-Gata dá-se a batalha que ficou conhecida por esse nome, e na qual, finalmente, as forças nipónicas, sob o comando de Takezaki Suenaga, reforçadas pelos homens de Shiraishi Michiyasu, inflingem a primeira derrota nas forças mongóis. 

Takesaki Suenaga, o retrato de um guerreiro do período do Kyuba-no-Mishi (Cavalo e Arco)


O comandante mongol, vendo as suas forças exaustas, mandou-as retirar para os navios. Perante isto, os guerreiros japoneses fizeram sucessivos ataques noturnos aos navios mongóis, levando a que o comandante mongol mandasse retirar a frota, regressando ao continente. Porém, de novo um tufão destruiu quase tudo o que restava da frota, tendo muitos guerreiros mongóis morrido afogados. Terminava assim a primeira tentativa de invasão dos mongóis de Kublai Khan ao Japão.
Durante o século XIII e o XIV, os ferreiros que fabricavam as lâminas para as Tachi desenvolveram uma outra lâmina com tratamento térmico diferencial que permitiu que o lado do gume da espada ha fosse muito duro, essencialmente composto por martensite, enquanto lado oposto, mune, era composto por um aço mais macio, capaz de absorver impactos. Estava finalmente encontrada a katana.

Tachi

A SEGUNDA INVASÃO
Os japoneses não tinham ilusões de que seriam novamente invadidos. A persistência de Kublai Khan era conhecida. 
Na primavera de 1281, os mongóis enviaram duas forças separadas. De acordo com Yuanshi (as crónicas dos Yuan), uma esquadra de 900 navios transportando 17.000 marinheiros, 10.000 soldados coreanos e 15.000 mongóis e chineses partiram da Coreia, enquanto uma força ainda maior de 100.000 navegou do sul da China em 3.500 navios. Eram mais de 140.000 soldados e marinheiros. Fontes japonesas mencionam 150.000 homens na força invasora. Não existem números concretos mas, a ser verdade, seria uma invasão deveras enorme.
O plano dos mongóis pedia um ataque coordenado esmagador pelas frotas combinadas do grande Khan. A parte da frota proveniente do continente  chinês atrasou-se pela dificuldade em encontrar tripulação para o grande número de navios. A frota mongol zarpou, sofreu grandes perdas em Tsushima e voltou atrás. No verão, a frota levou Iki-shima e seguiu para Kyūshū. Numa série de escaramuças individuais, conhecidas colectivamente como a Campanha de Koan ou a "Segunda Batalha da Baía de Hakata", as forças mongóis foram levadas de volta para seus navios. O exército japonês estava em desvantagem numérica, mas havia fortalecido a linha costeira com muros de dois metros de altura, e foi capaz, com mais facilidade, de repelir os ataques que foram lançados contra ela. Por volta de 15 de Agosto, um enorme tufão, assolou as ilhas Kyushu destruindo grande parte da frota mongol. Sentindo o tufão que se aproximava, os marinheiros chineses e sul-coreanos recuaram e entraram sem êxito na Baía de Imari, onde foram destruídos pela tempestade. 

Guerreiros japoneses atacando navios mongóis

Os japoneses chamaram aos tufões que derrotaram os mongóis nas duas invasões, de Kamikaze. Kami (deuses xintoístas) e kaze (vento). Então atribuíram ao Vento Divino a destruição das frotas mongóis.
Assim sendo, no ocaso da Guerra do Pacífico, e já em controlado desespero, desenvolve-se a ideia de emular o que sucedera séculos antes. É assim que os pilotos que voluntariamente se constituiam em bombas humanas se auto-designam de Kamikaze.

Wednesday, September 12, 2018

O MESTRE DA CERIMÓNIA DO CHÁ


Quando ouves o som da água a caír na tua tigela de chá,
Lava-se a poeira na tua mente.

Introdução

Muito se tem falado dos samurai, sem contudo se ter uma ideia concreta do que realmente eram. 
Durante o período de Kyuba-no-michi (A via do arco e do cavalo), isto é, o período do Japão Clássico, que vai do período Asuka (538–710), passando pelo Período Nara (710–794) e por fim o Período Heian  (794–1185), os guerreiros chamavam-se bushi, tendo-se originado daí o Bushido, que é o código de honra que chegou aos nossos dias como a "Via do Guerreiro".
É por volta do Período Muromachi (1333–1568), que se dá o progressivo desaparecimento dos bushi, que iriam dar lugar aos samurai, cujo significado se traduz por "aquele que serve". 
Importa aqui acrescentar que o Budismo Mahayana chegou ao Japão vindo da Coreia por volta de 552 d.C. juntamente com  uma imagem de Buda Sakyamuni e diferentes textos budistas.
O Zen, por seu lado, é o desenvolvimento japonês da escola do budismo Mahayana que se originou na China como Budismo Chan, mas onde não teve grande divulgação. Enquanto os praticantes Zen acreditam que a raiz da sua via se situa na Índia, a sua ênfase na possibilidade de iluminação súbita e uma conexão próxima com a natureza é de influência chinesa. 
Chan e Zen, que significam “meditação”, enfatizam a prática meditativa individual para alcançar a auto-realização e, assim, a iluminação. Em vez de confiar em divindades poderosas, o Zen enfatiza a importância do papel de um professor, com quem o discípulo cria uma conexão coração-mente. Essa ligação entre coração e mente chama-se em japonês kôkoro, geralmente mal traduzido por "coração" que se diz shin.

Há, generalizado, o conceito de que o samurai era um homem de honra. Era-o, sim, mas para com o seu clã, o clã que servia. Porém a história do Japão é feita de guerras e traições entre clãs, que desde muito cedo remeteram o imperador para um lugar de figura decorativa, guerreando-se entre si.

É certo que o Zen e a sua prática meditativa desde a infância, ajudou os samurai a superarem o medo da morte, considerando-se mortos e, assim, obrigavam-se a cuidar de si e da sua conduta, mas apenas dentro da sua casta. É bom que se saiba que os mercadores e camponeses eram considerados seres inferiores que podiam ser impunemente mortos pelos samurai. Tiremos pois da nossa mente a generalização de que eram uns seres sobrenaturais, apesar de praticarem o estoicismo, até no seppuku, mais conhecido por hara-kiri (corte do hara) o suicídio ritual. 
Quando confrontado com a própria morte, sua mente está perfeitamente imóvel. As probabilidades, os perigos e os inimigos podem ser massivamente contra ele e ainda assim a sua concentração, tão afiada quanto a sua espada, pode derrotá-los.

A história Zen do Mestre da Cerimónia do Chá.
Tal forma de auto-controle era enfatizada por ritos de comportamento muito rígidos. Não se limita aos guerreiros do Japão, no entanto. 
Os mestres de chadô (a Via do Chá) ou cerimónia japonesa do chá, realizam as suas práticas pacíficas com a mesma concentração e foco de atenção idênticas às requeridas num combate ou duelo. 

Há vários séculos, existiu um mestre de chá ao serviço do daimyio(senhor feudal) Yamanouchi. Diz-se que nunca ninguém tinha realizado a cerimónia do chá com tamanha perfeição. O tempo e a graça de cada movimento seu, desde o desdobramento do tapete, até a colocação dos copos e a peneira das folhas verdes, representavam a própria beleza. O daimyio seu senhor, ficou tão satisfeito com o seu mestre de chadô que lhe concedeu o posto e as vestes de um samurai.
Sempre que o Senhor Yamanouchi viajava, levou no seu séquito o seu mestre de chá, para que outros pudessem apreciar a perfeição de sua arte.

 Samurai com as duas espadas ou daisho e vestido formalmente com o kamishimo do clã que serve.

Certa vez deslocou-se com a sua comitiva para a capital Edo (o antigo nome de Tóquio).
Chegados à capital, o mestre do chá e seus amigos partiram ao caír da noite para explorar o distrito dos prazeres, conhecido como Ukyio-E, o mundo flutuante. 
Numa travessa mais estreita, deram de caras com dois samurai que vinham em sentido contrário. O mestre do chá, vestido de samurai, os únicos autorizados a trazer à cinta as duas espadas ou daisho, daito para significar a espada grande ou katana e shoto a espada mais curta chamada wakizashi, procurou desviar-se mas, mesmo assim, a bainha da sua katana embateu de raspão na bainha da espada de um dos samurai que não se tinham desviado. A bainha de uma espada raspar na de outro samurai era um insulto, talvez mesmo uma provocação. O samurai de Edo, talvez toldado pelo saké, levou a mão ao seu sabre, disposto a sacá-lo e a resolver o insulto ali mesmo.
Os amigos do mestre do chá e o outro samurai intervieram. Mas apenas conseguiram que se marcasse um duelo para o dia seguinte, pois estas questões de vida e morte eram assunto deveras sério. 

O mestre do chá ficou aterrado. Apesar de levar à cintura a katana e a wakizashi, não sabia manejá-las. Iria certamente morrer e desonrar o seu senhor.

Quando os dois samurai partiram, os amigos do mestre do chá abanaram-lhe o rosto e trataram os seus nervos com sais aromáticos.  
Já numa pousada, os amigos do mestre do chá sossegaram-no. Cada um deles daria dinheiro da sua própria bolsa, e juntariam uma quantia considerável para apaziguar o outro  e fazê-lo esquecer o duelo. Se, por acaso, o samurai não estivesse satisfeito com o suborno, certamente o Senhor Yamanouchi pagaria generosamente para salvar o seu muito estimado mestre de chadô.

Porém essas palavras não animaram o mestre do chá. Este pensou na sua família e no próprio Senhor Yamanouchi, ciente de que não lhes deveria trazer nenhum motivo para se envergonharem dele.

"Não", disse então com uma firmeza que surpreendeu os seus amigos. "Tenho um dia para aprender a morrer com honra, e vou fazê-lo."

Ergueu-se e regressou sozinho para junto do Senhor Yamanouchi. Ali encontrou o seu igual na graduação, o mestre de kenjutsu, que era hábil como poucos na arte da esgrima japonesa.

"Mestre", disse, depois de ter contado a sua história, "Ensina-me a morrer como um samurai".

O mestre de kenjutsu era um homem sábio e tinha um grande respeito pelo mestre da cerimónia do chá: “Esteja descansado. Vou ensinar-lhe tudo o que necessita, mas primeiro, por favor realize a cerimónia do chá para mim." 
O mestre do chá não podia recusar este pedido. E, enquanto realizava a cerimónia, todos os traços de preocupação e medo abandonaram o seu rosto. Foi-se serenamente concentrando nas simples mas belas taças e potes, e no delicado aroma das folhas. Não havia espaço na sua mente para a ansiedade. A sua mente focou-se por inteiro no ritual.

Quando a cerimónia terminou, o mestre de kenjutsu deu uma palmada de satisfação na coxa e exclamou com prazer:
"Não há necessidade de aprender nada sobre o caminho da morte. O seu estado de espírito quando realiza a cerimónia do chá é tudo o que necessita. Quando amanhã enfrentar o seu adversário, imagine que você está prestes a servir-lhe chá. Saúde-o cortêsmente, tire o haori (sobre-quimono) dobre-o como fez agora mesmo. Enrole a cabeça em um lenço de seda e faça-o com a mesma serenidade que se prepara para o ritual do chá. 
Pegue na sua espada e segure-a bem acima de sua cabeça. Então feche os olhos e prepare-se para o combate.

Postura de kirioroshi

No dia seguinte, no local e hora aprazados, o mestre de chadô fez exactamente o que lhe fora dito. Transpirava serenidade e emanava uma paz enorme quando ergueu a espada sobre a cabeça numa postura de kirioroshi. O outro, agora já totalmente recuperado dos efeitos do saké, sentiu a enorme diferença e hesitou. O homem que vira na véspera e tinha diante de si não era o mesmo homem. 
Sentindo a tranquilidade e vendo o mestre de chadô de olhos fechados, ainda mais o assustou. O samurai de Edo pediu desculpas pelo incidente e sua reacção, e deixou o local de combate com tanta velocidade quanto a sua perdida dignidade lho permitiu.

Uma velha história Zen.

Sunday, July 8, 2018

A VIAGEM AO JAPÃO DA NAU DO TRATO DE 1609



O barco negro, fundeado ao largo de Macau, que estava sob o comando do Capitão-Mor André Pessoa, mostrava intensa actividade.
Nos dois anos precedentes não tinha havido viagem para o Japão e urgia que o carregamento do navio pudesse compensar as ausências dos anos anteriores.
Tinha chegado palavra de Malaca de que os holandeses espreitavam a hora de assaltar a grande carraca, a Nau do Trato, como também ficou conhecida.
Ciente de que já um navio negro tinha sido capturado pelos holandeses, em 1603, e face às informações recebidas, André Pessoa resolveu antecipar a largada da Nau do Trato, chamada de "Nossa Senhora da Graça", para os princípios de Maio. O capitão-geral aproveitou a primeira monção e partiu mais cedo, antecipando-se aos holandeses que se tinham emboscado no estreito da Formosa. 
Cauteloso, André Pessoa escapou à armadilha, chegando a Nagasaki em finais de Junho. 
Os navios holandeses chegam tardiamente ao Japão e ficam em Hirado.

Problemas no Japão
Chegado a Nagasaki, o bagyo (magistrado) Hasegawa Fujihiro, ao contrário do que era habitual, criou problemas a André Pessoa, exigindo a inspecção do navio ao que Pessoa se opôs terminantemente. Quer Hasegawa quer ainda o daikan (oficial de Justiça) Murayama mostraram um certo grau de inimizade pouco habitual, tendo Hasegawa comprado abusivamente, em nome do shogun (regente do império) Tokugawa Ieyasu, toda a seda de melhor qualidade  a preços mais baixos.
O seu comportamento pode ter sido motivado pela inveja devido à influência que o padre jesuíta João Rodrigues gozava junto do shogun ou, nunca se sabia, poderia ser um reflexo da crescente impaciência de Tokugawa Ieyasu para com os portugueses. Os dois japoneses queixaram-se ao shogun da insolência portuguesa, acusando-os malévolamente de esconder a melhor seda para vender no mercado negro por preços mais altos.

Tokugawa Yeiasu

Sugeriram mesmo que, se o shogun adoptasse uma linha mais dura contra os portugueses, os navios de selo vermelho poderiam compensar algumas das perdas potenciais do comércio com os portugueses. Confrontado com o estabelecimento holandês de comércio em Hirado, Pessoa viu-se forçado a reconciliar-se com Hasegawa e Murayama através da intercessão dos jesuítas e de um suborno monetário.

Quando Pessoa explicou a Hasegawa a sua versão dos acontecimentos no incidente de Macau sugerindo que enviasse a declaração a Tokugawa Ieyasu, Hasegawa aconselhou Pessoa a não fazer nada do género. Hasegawa explicou que, embora Ieyasu estivesse ciente dos comportamentos truculentos dos japoneses no exterior, seria forçado a tomar como exemplo o lado de seus compatriotas se o assunto fosse levantado oficialmente. 
Pessoa não estava totalmente convencido com este argumento, e elaborou um memorando não oficial do caso português para Honda Masazumi, o encarregado das relações exteriores do shogun, para desagrado de Hasegawa e Murayama que, com má consciência, suspeitaram que Pessoa também se tinha queixado dos dois.
Em qualquer caso, a Honda Masazumi, com autorização de Ieyasu, deu ao enviado de Pessoa garantias escritas de que os marinheiros japoneses seriam proibidos de viajar para Macau, e qualquer um que fizesse isso poderia ser tratado de acordo com as leis portuguesas.

Exteriormente, Hasegawa ainda tinha em mente os interesses portugueses, pois era de seu interesse manter o comércio português vivo em Nagasaki. Providenciou para que os enviados portugueses chegassem à corte de Ieyasu antes do grupo de comércio holandês, mesmo que o shogun escolhesse conceder uma audiência aos enviados holandeses primeiro. A entrada em cena dos holandeses deu a Ieyasu a oportunidade de romper o monopólio português sobre a seda chinesa, e o regente deu permissão aos holandeses para estabelecer um posto comercial em qualquer lugar do Japão sem a restrição de preços como os portugueses. Hasegawa aparentemente tomou o lado Português e retransmitiu informações de actividades holandesas para o Português, no entanto, Pessoa e os comerciantes macaenses ainda estavam desconfiados das intenções de Hasegawa e resolveram fazer uma petição a Ieyasu diretamente para reclamar sobre Hasegawa e Murayama. Os jesuítas ficaram horrorizados quando descobriram a decisão de Pessoa devido ao seu conhecimento de que a irmã de Hasegawa, Onatsu era a concubina favorita de Ieyasu, "tanto que se ela dissesse que o preto era branco, Ieyasu acreditaria"  Os padres usaram todos os tipos de retórica que puderam reunir, incluindo a ameaça de excomunhão, para dissuadir Pessoa de apresentar a queixa. Pessoa desistiu, mas o estrago já havia sido feito, pois o intérprete japonês contratado para traduzir a lista de queixas mostrara isso ao próprio bagyo. Hasegawa, numa grande fúria, jurou acabar com Pessoa vivo ou morto. 

Em Setembro de 1609, os sobreviventes japoneses do caso de Macau de 1608 haviam voltado para contar sua versão dos factos ao seu senhor Arima Harunobu, e a notícia chegou a Ieyasu. O shogun repreendeu Hasegawa por tentar esconder o assunto e ordenou que este fizesse uma investigação completa. 
Hasegawa elaborou um longo relatório ao lado de Arima, que queria vingar-se dos seus homens, dizendo que os depoimentos de Macau tinham sido obtidos pelos portugueses sob pressão e que deveriam ser considerados nulos. Tanto Hasegawa como Arima defenderam a tomada forçada da "Nossa Senhora da Graça" e sua carga, porém o shogun hesitou neste ponto, uma vez que tal medida poderia colocar em perigo o comércio anual de Nagasaki-Macau. 
O impulso final de que Ieyasu precisava surgiu inesperadamente, quando um navio espanhol partindo de Manila para o México afundou na costa leste do Japão no mesmo mês. Quando Ieyasu recebeu os sobreviventes espanhóis na sua corte, perguntou ao seu capitão, Rodrigo de Vivero y Aberrucia, o recém-substituído governador das Filipinas, se os espanhóis poderiam fornecer a maior parte das importações de seda para o Japão como os portugueses. Aberrucia respondeu com rapidez que eles poderiam facilmente enviar três navios ao Japão por ano. Ieyasu, agora convencido de que poderia substituir os mercadores portugueses pelos espanhóis, holandeses e pelos seus próprios navios de selo vermelho, ordenou que Hasegawa e Arima prendessem Pessoa a todo custo. 

Baía de Nagasaki 1610
Através da comunidade cristã no Japão, Pessoa foi informado das intrigas contra ele e prontamente preparou-se para a defesa e partida da sua carraca. Mandou preparar uma grande quantidade de granadas de mão e munições a bordo do navio, mas devido ao enorme tamanho da carga, o navio não estaria pronto para navegar até o Ano Novo em 1610, enquanto os navios macaenses anteriormente retornavam antes do Natal. Enquanto o navio estava a ser carregado, Arima Harunobu tentou convencer Pessoa a ir à praia com ofertas de hospitalidade, dizendo que ele havia sido enviado a Nagasaki apenas para negociar os preços da seda, e que os altos funcionários do shogunato só queriam que Pessoa desse a conta a pagar. No tocante aos acontecimentos de Macau, como estrangeiro seria perdoado, mesmo se considerado culpado. Muitos portugueses acreditavam em Arima, mas não Pessoa, que sabia que Arima havia reunido uma força de 1200 samurai contra ele. Pessoa agora não iria a terra nem mesmo para a missa, e ordenou que sua tripulação subisse a bordo da embarcação para zarpar. No entanto o barco negro viu a partida adiada porque alguns tripulantes acreditavam que a crise actual era apenas a disputa pessoal de Pessoa e demoravam deliberadamente, enquanto a maioria dos que queriam embarcar foi obstruída por guardas japoneses. 
No momento em que Arima Harunobu atacou a carraca, em 3 de Janeiro, apenas cerca de 50 portugueses estavam a bordo com alguns escravos negros.

Antes de atacarem, Arima, Hasegawa e Murayama enviaram em conjunto uma mensagem aos jesuítas, justificando o ataque iminente à carraca com o facto de Pessoa estar a tentar escapar à justiça japonesa, acrescentando que, se a tripulação portuguesa desistisse de seu capitão, o assunto seria resolvido. Os jesuítas responderam que não era da cultura portuguesa entregar os seus capitães.

À noite, a armada de juncos de Arima, cheia de gritos, aproximou-se da "Nossa Senhora da Graça", que estava apagada e silenciosa. Alguns dos oficiais de Pessoa queriam disparar para a multidão, tendo acendido os pavios que traziam para os bacamartes, mas Pessoa recusou-se a assumir a responsabilidade de abrir as hostilidades, e assim os procedimentos de zarpar e levantar âncora continuaram em silêncio na escuridão. Os japoneses atiraram primeiro, disparando por duas vezes tiros de mosquetes e flechas, ao que então, André Pessoa respondeu com duas saraivadas sucessivas dos dois lados do navio. A flotilha japonesa recuou para a noite quando o barco português ancorou em Fukahori  por falta de vento. 

Hasegawa assumiu a batalha como perdida e enviou um mensageiro para o shogunato levando a notícia. Ieyasu recebeu a notícia com grande ira e ordenou que todos os portugueses em Nagasaki fossem executados, incluíndo missionários jesuítas. Esta ordem nunca foi porém levada a cabo, porque o mensageiro retornou a Nagasaki para encontrar a situação muito alterada. 

Batalhas Nocturnas
A batalha continuou com pequenas variações para as duas noites seguintes, já que os japoneses aparentemente não ousavam atacar durante o dia. Além de repetir as manobras da primeira noite, Arima tentou vários métodos diferentes para subjugar o navio. 
Primeiramemente tentou enviar dois samurai disfarçados para embarcar no navio e matar Pessoa no convés, mas o estratagema falhou, pois os dois não foram autorizados a entrar no navio. Enviou então mergulhadores para cortar os cabos da âncora do navio, mas isso também não teve sucesso. Na terceira noite, Arima enviou uma flotilha de jangadas incendiárias, mas sem efeitio. 

Durante o terceiro dia, Arima enviou uma mensagem a Pessoa dizendo que desejava renovar as negociações sobre os preços da seda, e estava disposto a enviar reféns a bordo para provar sua sinceridade, desde que a carraca permanecesse onde estava. Pessoa, em troca, exigiu que os filhos de ambos, Arima Harunobu e Murayama Toan, fossem os reféns e ele fosse autorizado a levar o navio para o ancoradouro vizinho de Fukuda, onde poderia esperar ventos favoráveis para voltar a Macau. Arima não deu resposta, mas Hasegawa ficou furioso quando soube da troca, dizendo a Pessoa numa mensagem que Arima não tinha autoridade para fazer tal proposta e, pelo contrário, tinha ordens directas para matar Pessoa. Hasegawa acrescentou que se Pessoa se rendesse e deixasse a carga ser vendida a um preço decidido pelos japoneses, poderia interceder em nome de Pessoa. O capitão-geral recusou novas negociações enquanto os japoneses continuassem as hostilidades. 

A noite final
Na manhã de 6 de Janeiro de 1610, uma brisa favorável tornou possível para Pessoa mover o seu navio para uma enseada próxima a Fukuda. Vendo que sua presa estava prestes a fugir, Arima embarcou numa flotilha liderada por uma enorme torre-de-assalto. Esse dispositivo foi construído pela junção de dois grandes barcos, sobre os quais foi erigida uma torre de madeira tão alta quanto o convés da carraca. A torre estava coberta de peles molhadas para protegê-la contra o fogo português e tinha aberturas para os 500 arqueiros e mosqueteiros no interior para disparar. Com um total de cerca de 3000 samurai, reforços nos últimos três dias a flotilha tentou aproximar-se da carraca sob a cobertura da torre-de-assalto.

Entre as 8 e as 9 horas da noite, a flotilha aproximou-se da popa da carraca, onde apenas um dos canhões amovíveis poderia ser usado para afastar o ataque, já que o outro havia sido transferido para a proa para proteger os cabos do navio. 
Um samurai cristão liderou a investida, dizendo aos samurai cristãos que estavam junto a si que se o navio português não fosse destruído ou capturado, o shogun voltaria a sua ira para a comunidade cristã e as igrejas seriam destruídas. Nesse ataque, alguns japoneses conseguiram subir ao navio, mas foram imediatamente derrubados (o próprio Pessoa aparentemente matou dois) ou foram forçados a lançar-se ao mar.

Os portugueses foram capazes de afastar as pequenas embarcações com granadas de mão, mas estas fizeram pouco efeito sobre a torre flutuante, que se acoplou o convés da popa. Até então, as baixas portuguesas eram poucas, apenas quatro ou cinco portugueses, juntamente com alguns escravos africanos, enquanto os japoneses mortos eram estimados em várias centenas. No entanto, seis horas após o confronto, um tiro da torre-de-assalto atingiu um pote de piche em chamas que um soldado português estava prestes a lançar. Isso iniciou um incêndio que se espalhou pelo convés e colocou uma das velas em chamas. Pessoa e seus homens recuaram para o castelo da proa, onde perceberam que não tinham homens suficientes para combater simultâneamente o fogo e as hostes japonesas. 
Nessa altura, decididamente, Pessoa ordenou que o paiol do navio fosse incendiado, já que ele preferiria morrer do que render-se. Perante a hesitação do comissário da carraca, Pessoa murmurou uma oração e deu ordem aos seus homens que se salvassem, enquanto corria para o paiol. 
A "Nossa Senhora da Graça" explodiu duas vezes, dividiu-se em duas e afundou-se com carga e tripulação. Os japoneses mataram tudo o que puderam ver nadando na água, mas alguns sobreviventes conseguiram chegar à costa em segurança. O corpo de André Pessoa, no entanto, nunca foi encontrado. 

O final
Os restantes mercadores e missionários portugueses ficaram extremamente preocupados com os seus destinos, especialmente porque Ieyasu ordenara pessoalmente a sua execução. Arima Harunobu, também ele cristão, lamentou o que havia feito e intercedeu em favor dos jesuítas. O próprio shogun mudou de opinião, já que estava convencido de que o comércio exterior cessaria sem os missionários. Eventualmente, os comerciantes foram autorizados a regressar a Macau com os seus bens, enquanto os missionários foram autorizados a ficar. 

Uma vez que a cidade de Macau dependia muito do comércio do Japão, o Senado de Macau decidiu que era prudente enviar um representante ao Japão para negociar oficialmente a retoma do comércio. Eles não puderam enviar um navio para o Japão até o verão de 1611, quando uma embaixada liderada por D. Nuno Soutomaior chegou à corte de Ieyasu em Agosto. O shogun estava muito desiludido com as suas expectativas anteriores de substituir os comerciantes portugueses pelos holandeses e espanhóis, uma vez que os holandeses não puderam entrar em 1610, pois quer holandeses quer espanhóis estavam envolvidos na guerra dos oitenta anos, entre si.  Além disso, contrariamente às garantias prévias de Hasegawa a Ieyasu, as importações de seda dos navios de selo vermelho não podiam ser comparadas com as do "grande navio de comércio", uma vez que os portugueses gozavam de um acesso directo quase exclusivo ao mercado de seda de Cantão devido às suas relações com os chineses. Ambos os lados estavam ansiosos para retomar o comércio anual do Japão. A culpa pelo incidente de Nossa Senhora da Graça foi colocada sobre o falecido André Pessoa por se recusar a render-se quando solicitado, e Ieyasu deu permissão para que o "grande navio" viesse a Nagasaki como dantes. Depois de outra viagem à corte de Ieyasu em 1612 para esclarecer os termos de troca, o "São Felipe e Santiago" tornou-se a primeira carraca portuguesa a fazer negócio em Nagasaki após um hiato de dois anos. 

Extraído de C.R. Boxer
The Christian Century in Japan: 1549–1650

Thursday, July 5, 2018

INCIDENTE EM MACAU, 1608


BARCO DE SELO VERMELHO

A pequena cidade de Macau, no dealbar do século XVII estava empenhada na azáfama do comércio da prata e da seda com o Japão. Os habitantes, mistura de portugueses europeus, de mestiços da Índia e da Malásia, além de mulheres malaias e indianas, mouros de turbante e chineses que aqui estavam para o pequeno comércio, sem contar com escravos africanos, entregavam-se cada um à sua azáfama perante a silhueta protectora do barco negro, a grande carraca ancorada ao largo da praia que se iria perpetuar como "grande", e que tinha uma vida própria, marginal.
Certo dia, ia já muito adiantado o ano de 1608, avista-se a chegada de um barco com velas mistas, prontamente reconhecido como um "selo vermelho", um junco grande japonês que viajava a coberto de uma ordem do Shogun Tokugawa Ieyasu que tinha o selo rubro do shogunato. Estes barcos iam de Nagasaki a vários destinos como o reino do Sião e outros destinos do Sudeste Asiático, trocando espadas, prata, cobre e diamantes por sedas e açucar.
O barco, pertencente ao daimyo (senhor feudal) Arima Harunobu, fundeou ao largo, e em botes chegaram à praia bandos de samurai, sempre acompanhados pelos seus daisho (conjunto de espada curta ou wakisashi e longa ou katana). Aos bandos, atravessaram o areal da praia provocando tudo e todos. Os distúrbios continuaram quando entraram no burgo. Os chineses que comerciavam em Macau foram especialmente visados e pediram ao Senado que interviesse. Este pediu aos japoneses que moderassem o seu comportamente e se disfarçassem de chineses, pedido que apenas serviu para mais os enraivecer.
Dias depois o bando meteu-se numa briga de que resultaram mortes entre as autoridades locais que tinham ido acudir. 
Face a isto os sinos tocaram a rebate e o capitão do barco negro, André Pessoa, acudiu com os seus homens. Os mais de 60 japoneses fugiram, refugiando-se dentro de duas casas. O capitão-geral que, quando em Macau assumia as funções de governador do entreposto, mandou cercar as duas casas. Ordenou de seguida que a uma delas fosse lançado fogo, conseguindo assim que os bandidos saíssem, tendo sido abatidos vinte e sete. 
Os jesuítas intervieram, quando o capitão-geral se preparava para invadir a outra casa, pedindo maior contenção a André Pessoa, não fosse o incidente afectar as relações com o poder nipónico. 
André Pessoa reconsiderou, e os cerca de 50 rufiões, foram induzidos a render-se. No entanto, Pessoa mandou prender os líderes suspeitos, enquanto os restantes foram autorizados a deixar Macau depois de assinarem uma declaração juramentada absolvendo os portugueses de toda a culpa.
Nesse tempo os holandeses andavam a espiar o comércio português, tendo conseguido capturar a nau Santa Catarina em 1603, cujo espólio foi tão lucrativo que foi vendido por mais da metade do capital original da Companhia Holandesa das Índias Orientais.
Face a isso, o barco-negro não fazia a viagem anual há dois anos consecutivos, 1607 e 1608.  Porém, nesse ano de 1609 impunha-se fazer a viagem para recuperar as perdas dos anos anteriores.


Wednesday, June 13, 2018

PLÁCIDOS DIAS


Somos a nossa mente, encerrada num corpo, o nosso. E enquanto o nosso corpo cresce, matura e envelhece, a mente pode-se ir aquietando, à maneira de uma cascata que se torna em lago espelhado. 
Diria que não é fácil, mas se o acaso do destino nos levar por esse caminho, cumpre-nos procurar que uma mente tão ruidosa como uma cascata se transmute num tranquilo lago.
E ao falar disto falo dos dias que passam e do que é o encontro com o acaso, quando a nossa mente está afinada pela percepção de que a realidade só acontece dentro de nós. Nada, mas nada mesmo, pode ser experienciado exógenamente à nossa mente.
É assim que vale a pena aprender quotidianamente a fruír o pouco que podemos tornar em muito, porque por vezes o pouco é muito e o contrário também. Cabe-nos preparar a mente para que ela conheça o Poder do Silêncio, como diz Carlos Castañeda. 
Hoje percebo a importância dos mosteiros, das clausuras, quando eram voluntárias. Tive um grande mestre na sua idade madura: meu Pai. Agora que estou na mesma idade, compreendo o quão simples ele era quando, sentado num banco de uma tendinha na Rua da Palha, comia deliciadamente uma qualquer iguaria de rua, quando um bando de dois padres o mimoseou com um "ó senhor dr., sentado aí a comer?" ao que o então reitor e chefe dos serviços de educação respondeu "é verdade, hmmm, está muito bom, querem provar?".
É esta a simplicidade que me toca e na qual me revejo, porque entre um hotel luxuoso com gentilezas profissionais e um café onde circula o afecto, não hesito na escolha. 
E é nesse contexto que o quotidiano se torna singular, quando apreciamos a singeleza, e a tua mente, espírito ou alma, se compraz com a simplicidade dos gestos, estás mais perto da vydia (conhecimento em sânscrito). 
Somos também como respiramos. E nessa troca, é bom que usemos a mente como entidade reguladora de inspiração profunda e da expiração que chega ao chakra (sânscrito para roda) da zona sacra. 



Demos-lhe energia gozando a vida simples, gratificando-nos com coisas que nos dêm prazer, como comer um doce. Contudo desde sempre ouvi dizer que o nosso corpo é um templo, e mais de acordo estou à medida que envelheço, porque o templo requer que cuidemos dele, pois há sofrimentos que são desnecessários agora ou mais tarde.

O Budismo não é, para mim, uma religião, mas sim um conjunto de regras muito sábias, destituídas de pecado, que passou a ser simplesmente avydia, ignorância (no seu sentido mais profundo).  
É, antes do mais, um preceito mental destituído de culpas e plácido, como plácidos são os dias que quisermos que o sejam.
Na idade do ruído (mental), há quem não hesite em empurrar de qualquer modo os outros para atingir os seus objectivos. 
É pena, porque é a idade da sementeira... Mas é assim que a alguns lhes é dado viver a mente, o mundo que os habita, ilusoriamente competitivo.

Por mim falo, que hoje aprecio tanto a singeleza, o afecto que por vezes me repreendo por já de nada ter medo, porque o medo faz mal, adoece-nos. Apenas o Amor, nas suas mais diversas formas conhecidas nos revigora. 
E se ao vigor juntarmos a placidez da mente e dos dias...

António Conceição Júnior

Saturday, June 9, 2018

DONG

Dong
Nestes dias, que vão arrefecendo lentamente, existe no ar uma ambiência luminosa que lhes dá uma magia suplementar, com o sol, visto pela peneira  de nuvens vagamente cinzentas, espalhando uma luz quase dourada, mais branda que nos dias de canícula, em que o sol impiedosamente dardeja.
Por vezes, ainda que escassa, a neblina abate-se, tornando a própria navegação difícil. É uma névoa que se adensa à superfície da água, ocorrendo o mesmo em terra.
Imaginar-se-á, porventura, que mais se irá escrever à guisa de introdução, porém algo me diz que mais nada deverei acrescentar à ambiência, não vá haver saturação, que tudo o que é demasia tende para o desequilíbrio.
Certo é que achei a névoa matutina convidativa e dei comigo num gratificante caminhar pela cidade, atravessando o Largo do Senado, parando a olhar   a belíssima fachada de S. Domingos e a recordar o rigor dos desenhos de Chinnery, onde vendilhões se agrupam em busca de fregueses.
À direita fica a ruazinha onde ainda existe a barbearia Xangai, que a outra, a Sanitária, há muito deu lugar a uma perfumaria por onde passo, aspirando o aroma. À esquina, corto à esquerda   e entro na rua da Palha. Palmilho os primeiros dez metros olhando satisfeito em redor quando, por debaixo dos meus pés, me falta o empedrado, e quase caio no piso de terra. Estranho percalço que mais se acentua quando reparo que a calçada de granito se vai como que esboroando da sua tecitura, cedendo lugar à terra batida. Mais além, onde a rua tem pretensões a largo, sai estranho vapor do chão, que me deixa na dúvida se a névoa era vapor ou se, pelo contrário, era vapor querendo ser atmosfera. Hesitei em continuar, porquanto tais estranhas obras poderiam conduzir a outras mais complexas, a ocorrer já na curva onde nasce a rua de S. Paulo. E nesta hesitação, com os pés buscando melhor apoio, ouvi por detrás de mim uma voz vagamente familiar, saudando-me:
– ah, ni hau ma. Hang xiao jian.
Shi Wei Ming surgiu-me nas costas, o mesmo aspecto seco e austero de quem levara uma vida dormindo em tarimbas e comendo com frugalidade. Envergava um tang zhuang escuro e coçado,  as mangas ligeiramente dobradas para cima, e carregava um pequeno molho de couves atadas por um fio, dançando da extremidade de um dos dedos da mão esquerda.
–Onde vai? – perguntou-me, que é cortesia grande cuidar de saber para onde se vai e se já comemos ou não, coisa simpática e que ocorre conforme a hora, demonstrando ao outro que os seus assuntos interessam, coisa que as convenções ocidentais rejeitam.
–Eu ia tentar encontrá-lo para renovar a conversa, mas com este estranho nevoeiro, estava hesitante. Shi Wei Ming sorriu vagamente, cofiando a barba branca, e pegando no meu braço começou a andar tranquilamente.
– Tian shi é apenas uma das diversas dimensões do tempo. Sabe, nós estamos demasiadamente ligados às coisas que conhecemos porque nos inspiram segurança. O que é uma neblina no Outono?
Caminhava ao seu lado, esquecido já dos transtornos do piso, que entretanto o instinto cuidava disso e os passos de Shi Wei Ming pareciam familiarizados com tão insólito chão. Atravessámos a parte da neblina que era mais densa. Não sabendo se era vapor, sustive a respiração enquanto levava o lenço ao rosto. Ouvia ao lado os passos do meu companheiro de trajecto e distinguia-lhe a silhueta, como se ambos navegássemos junto à costa. A neblina permanecia espessa, embora os cuidados que ainda tinha com o  andar se  fossem pouco  a pouco dissolvendo. Tinham removido toda a calçada e, se bem que eu não ande muito a par das notícias, nada me indicara estarem por aqui a decorrer obras.
– Então retiraram o empedrado? – perguntei, quando já subíamos a discreta rampa da rua de S. Paulo.
– Não se preocupe – retrucou o velho com ar tranquilo. – Vamos aonde nos encontrámos da outra vez.
A neblina ia-se dissolvendo e, para meu máximo espanto, estávamos num carreiro, em pleno descampado, vendo-se bem próximo um monte pouco elevado, umas rochas graníticas entre a vegetação escassa, e mais nada. Estaquei, siderado. Levei um dedo à boca mordendo-o, pois talvez assim acordasse deste estranho sonho. Os dentes morderam o suficiente para acordar, contudo ali continuava. Levei a mão ao bolso para puxar de um cigarro, e o maço lá estava, vermelho. Acendi um e aspirei lentamente, olhando estranhamente para tudo aquilo, como se, de repente, tivessem extirpado a paisagem de todas as construções. Havia que reconstruir tudo lidando com a resistência da incredulidade.
– Está a estranhar a paisagem? – perguntou Shi Wei Ming que tinha parado mais à frente e me olhava com um sorriso entre o irónico e o enigmático. – Não estranhe que as coisas mudem. Tudo muda, apenas o essencial permanece. Se lhe é dado atravessar o tempo, aceite isso.
E  recomeçou a  andar pelo carreiro. Olhei para  a esquerda e, lá em baixo, ao fundo, o braço do delta corria silencioso e imperturbável. Distinguia perfeitamente a silhueta próxima do meu companheiro, caminhando ao sabor do carreiro. Na elevação, que por hábito chamarei de monte, dois cães vadios cheiravam ervas em busca das que mais lhe convinham para uma qualquer purga, enquanto no topo pude ainda distinguir uma silhueta longínqua que acabaria por desaparecer. Caminhávamos em silêncio, o meu feito mais de contínua observação do que me era dado ver.
Caminhávamos agora pelo trilho que seria anterior à rua de S. Paulo e que se fundiria a meio com a rua de Santo António. Ao longe surgia uma pequena elevação de vegetação que se ia adensando.
– Estamos a chegar – disse sorrindo Shi Wei Ming. Para mim era como habitar o útero da cidade, vogar dentro das suas águas fetais, virgens ainda das memórias que se iriam construir. O rio, à esquerda, estava mais próximo, o declive era maior, e por ali estavam duas pequenas barracas, de gente humilde que se dedicaria a algo que não consegui discernir entre a vegetação, porquanto Shi estugava agora o passo.
Havia por entre o matagal um outro carreiro que eu não descortinara. Fomos caminhando no meio de bambuais, fetos e algumas árvores que se curvavam entre si, formando como que um túnel. Iniciámos uma subida que circundava uma pequena elevação e, voltando a descer, demos com uma enorme rocha que formava como que uma mesa gigante. Voltando costas ao rio, que continuava visível, uma rampa suavizada por alguns pedregulhos que alguém aí pusera conduzia a uma dong escura. Shi Wei Ming desceu os primeiros degraus e, virando-se, sossegou-me:
– Vem, é bem possível que seja interessante. Entrava-se na gruta dobrando a cabeça que a pedra era em cunha, quase uma pirâmide invertida. Deixei que os olhos se habituassem ao escuro e que uma bruxuleante luz suave e alaranjada vinda do fundo me permitisse, enfim, descortinar os degraus escavados ao longo da parede rochosa. Desci a espiral de degraus que contornavam a quase circular formação rochosa. Dir-se-ia uma tigela invertida, onde ao centro, resguardadas entre pedras, ardiam brasas. Shi desaparecera do meu campo de visão. Pude descortinar, saindo do escuro, o vulto de um homem de meia-idade, baixo, vestido com um gibão que fora de tecido lavrado  e uns calções verdes escuros com brifantes sobre meias sujas e rotas. Encaminhou-se para o centro, olhando-me uma única vez com ar triste. Baixou-se, mergulhou a mão direita nas brasas e, erguendo-se, caminhou para mim. O rosto não indiciava qualquer dor. A luz do carvão incandescente dava-lhe um ar de grande dignidade, enquanto as mãos se estendiam na minha direcção. Pensei em Shi Wei Ming e em tudo aquilo, enquanto, hesitante, estendia a mão perante gesto tão irrecusável. Verteu na minha mão aquela incandescência que, de imediato, se transformou em gelo. Fiquei a ver os pedaços do oposto derreterem-se e escorrerem para o pó da terra. Ergui de novo o olhar para encontrar à minha frente Shi Wei Ming. Ainda balbuciei um “mas onde é que se meteu?”, mas o velho, com suave firmeza, disse:
– Vem!
Havia uma abertura coberta por um esfarrapado tecido. Shi afastou a cortina e sinalizou para que eu entrasse. A porta dava para um exterior protegido por tábuas e esteiras, espécie de barraca cujo tecto era coberto por folhas de bananeira e palmeira, tudo amontoado, por onde penetravam, dos interstícios, fracos veios de luz.
Se pudéssemos chamar aquilo de aposento, diria que à minha frente havia uma mesa de madeira negra, espessa. Sobre o tampo encontrava-se um púcaro em faiança e uma tigela, e mais além um livro mal acabado com a carneira a soltar-se. Ao fundo, uma espécie de catre onde se deitava uma mulher de aspecto modesto e desgrenhado. Do lado de cá do leito estava sentada uma figura vestida de negro, a perna esquerda alçada sobre o catre, a cabeça inclinada para o cachimbo de água, que eu juraria ser o mesmo que vira da primeira vez nas mãos de Shi Wei Ming, A figura ergueu a cabeça para expelir uma baforada de fumo e, parecendo por fim dar pela minha presença, olhou-me:
– Ah, chegasteis enfim.
A voz era cava, rouca mesmo. O cabelo era quase negro, algumas ligeiras brancas, a barba abandonada. O rosto ostentava uma cicatriz mal curada que lhe cortava a sobrancelha direita sobre a testa e lhe descia até quase ao nariz. O olho era uma terrível mistura de tecido cicatricial. Olhei   o personagem em silêncio, observando-lhe o ar sofrido mas desafiador. Ergueu-se lentamente do leito, o gibão negro aberto, calções rotos. Arrastou-
-se com o cachimbo para a mesa, sentando-se no tampo, os pés sobre o banco.
– Perdoar-me-eis de nada vos poder oferecer. Eis tudo o que possuo. É pouco e é muito, que a má fortuna me persegue por eu de mim ter este modo de ser que tão pouco agrado faz junto de quem me poderia valer. Não fosse este  velho  amigo, talvez já de todo a esperança me tivesse abandonado. Não que espere algo, não sei que esperar, apenas algo me mantém preso a esta vida. Interrompeu-se olhando o fumo e, através dele, parecia curioso do que via entre as frinchas do barraco.
– Não vos direi o meu nome porque pouco importa, e se desta terra sou estrangeiro recente, vós, que vindes de um outro tempo, dizei-me o que me resta de esperança e vida, que o velho que vos trouxe pouco fala da nossa língua...
O abatimento era notório. Contudo o que me inspirava espanto era a sua tácita aceitação da minha condição de estranho do seu  tempo, era  o seu diálogo com um futuro longínquo. Acendi outro cigarro perante a sua silenciosa expressão de espanto.
– Não precisa de me dizer o seu nome, é patente que eu o reconheço. A história dar-lhe-á lugar de proeminência máxima, ainda que a sua presença aqui se conteste.
Ouvia-me com expressão atenta, concentrada. Bebia as palavras num português que não era o seu, sem os formalismos do tempo.
– Ha! – escarneceu – proeminência máxima do degredo e do desprezo, apesar de trazer sempre, junto ao coração, a memória da espada numa mão e a pena na outra.
Quase berrava.
– Não, nunca aqui estive, que tudo é fruto do pão que não como, e que o demo amassou.
Bebeu da tigela uns goles, a mulher virou-se no catre, agora semi-desperta, olhando passiva a cena.
- Sabei que per a Pátria dei uma vista e alguma dor e, se o amor me foi consolo bastas vezes, quem ousa punir os amores dum pobre soldado daqueles de el-rei, que faz dos seus bastardos nobreza vil sob a capa da piedade eclesial? Ah, mas dirão certamente que, com lisonja, ajuda peço, como se da miséria injusta de que padeço me desse a firmeza que a lisonja precisa, para que tal possa ser. Mas dizei mais senhor, que de tanta lonjura vindes.
O que relato é forma mais que imperfeita do modo como o personagem falava. Se algo há que mais constrange é revelar a alguém o seu futuro, mesmo que tudo isto não passe de um estranho sonho, e   se sonho é, apesar de mordido o dedo e fumados dois cigarros, é sonho persistente que não se pode combater. Deixo-me pois envolver sem contestar.
– De que vale saber o futuro se ele já é passado, e mesmo quando ainda futuro já está escrito, como a ode que ireis finalizar...
Deu um salto para o chão, o ânimo parecia renovado.
– Terminarei o que trago na alma e neste corpo enfraquecido, este Canto que me não esmorece   a voz nem a pena, aaaah. Será terminado? Será terminado?
O entusiasmo apossava-se do personagem.
– E publicado, será publicado? Fazei-me essa mercê, senhor. Apenas esta mercê. Talvez o Santo Ofício o permita.
Abria o envelhecido livro de carneira solta, folheando finas folhas de papel chinês de mistura com outras de diferente origem, sabe-se lá quem lhas teria obtido. Um frenesim perpassava-lhe a cabeça e todo o ser.
– Papel, traz-me mais papel – gritava para a mulher deitada.
Deixei que a agitação passasse:
– Sim, asseguro-vos que será publicado e que sereis famoso, o primeiro entre os lusos.
Olhou-me fixamente com o olho que tinha, e de rompante solta:

Julga-me a gente toda por perdido, 
Vendo-me tão entregue a meu cuidado, 
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido, 
E quase que sobre ele ando dobrado, 
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento, 
Busque riquezas, honras a outra gente, 
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento 
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

E saiu disparado, correndo, coxo, arrastando pela mão a mulher, que também tinta lhe faltava.
Não lhe disse que o iriam endeusar, coroar de louros, instituí-lo. Os grandes homens são meras sombras de si próprios. Não lhe falei em escudos com a sua efígie em tempo de Euros, nem que isso de provedor de mortos e defuntos, talvez o fosse, mas não ainda no seu tempo.