Saturday, April 23, 2016

A BICA DE DUAS BOCAS



António Conceição Júnior

A brisa marinha é sempre diversa. Com ela vem o sussurrar da proa, apartando as águas, e o ranger da madeira e do cordame que segura as velas enfunadas pelo vento. Os ouvidos e a experiência ditavam a rota no escuro da noite.
Wong Siu Ieng, deitada no convés, já há muito deixara de sentir a maresia e o cheiro do peixe. Olhava o céu. A seu lado, Lai dormia a sono solto. Estavam no convés, que em baixo fazia demasiado calor. Olhando as estrelas não encontrava as da sua aldeia. A memória era vaga, curta. Lembrava-se que dormia na barraca palafita quando uma vozearia estalou e, subitamente, agarrada por braços poderosos e coberta por um grande lenço foi levada para um baloiçante bote, enquanto outras vozes chorosas se lhe juntaram. Após curta viagem, ainda coberta, foi içada para uma amurada de onde a levaram. Ainda ouviu tiros e o estalar do fogo nos bambus. Era a sua aldeia, pensou. Depois, um vazio de memória, um breu como o da noite que atravessava.
Lembrava-se de uma pequena praia onde, à vez, fundeavam juncos e onde contemplava, à distância, um perfil longínquo, habitado. Numa gruta, ao fundo da pequena praia, tinha o seu catre. Aí aprendera a manejar facas e espingardas. Os homens davam ordens, mandavam cozinhar peixe e arroz. Por vezes havia carne de porco ou galinha. Descobrira a existência de outras grutas, fendas na rocha banhadas pelas águas do rio.
A maioria das outras crianças não crescera com ela. Por razões que desconhecia, fora adoptada por Lai Ma (mãe Lai) que, de cartucheiras à cintura mandava nos homens. Lai Chói Sán (Lai Montanha de Fortuna) tomara-a sob sua custódia e assim crescera. Os homens murmuravam que Lai Ma, ainda adolescente, tinha sido abusada por um bando e, como vingança, se tornara pirata, usando os seus homens quando a ela lhe apetecia, que era seca do útero. Talvez por isso a tivesse adoptado.
"Wei", sussurrou a sentinela, "estamos a chegar!". Wong Siu Ieng interrompeu os pensamentos. Com os outros, levantou-se, pegou mecanicamente na espingarda, afivelou a cartucheira e dois tanka foram descidos. Primeiro desceram os homens, depois Lai Ma e Wong Siu Ieng. O junco seguiu caminho.
O azul nascia no horizonte e aos poucos os olhos foram-se habituando. Estavam na nesga de rio de onde se acedia ao templo de Avalokiteshvara Kun Iam. Meteram-se os oito por uma rua traseira que dava para a vila de Coloane.
Esgueiraram-se para dentro de uma casa na Rua do Meio. Bastou um toque no portal para, do outro lado, se ouvir a tranca de madeira correr. Entraram para um pátio cheio de plantas, seguindo por um curto caminho de pedra que dava acesso à casa de tijolo cinzento que despertava com o raiar do dia. Lao Wing Man mandou servir canja numa enorme mesa redonda de tampo metálico. Os convivas, em silêncio, sorveram a sopa e comeram vorazmente o que traziam, fosse soi kau ou nabo frito. De quando em vez, olhavam para fora, o pé marítimo em cima do banco.
Lao Wing Man, reclinado, fumava ópio. De olhos semicerrados, esperava que acabassem o pequeno almoço. Lai Ma limpou os lábios com as costas da mão, pulso ornado de pulseira de jade e boca de dentes de ouro, e levantou-se.
“Tim-a Lao Sôk?” (então tio Lao?), interrogou a mulher pirata, dirigindo-se ao velho que lhe respondeu com um sorriso desdentado, lançando uma baforada de fumo: "Sempre o mesmo". Virou-se e chamou A-Weng. O empregado curvou-se. "Traz as coisas", disse o velho. A-Weng dirigiu-se a outro compartimento fora do olhar dos visitantes e voltou, entregando a Lao um conjunto de envelopes chineses e uma cesta de vime.
Lai Ma tirou de um dos envelopes notas enormes que verificou. Abriu a cesta de vime e espreitou para um montão de moedas. "Muito bem, Lao Sôk, bom trabalho. Ficas com as moedas" disse a mulher, perguntando de seguida "todos pagaram?". O velho riu-se. "Claro, eles sabem que tem de ser assim" disse com a forma arrastada de quem quer, à maneira cantonense, vincar uma afirmação.
Lai Ma virou-se para o grupo, mas dirigiu-se à rapariga. "A-Ieng, vamos dar uma volta. Traz o incenso". Tirou os sapatos e ficou com o aspecto indistinguível de uma pescadora, pés chatos habituados a agarrar a teca do junco. Wong Sio Ieng desfez-se também da cartucheira, alisou a cabaia curta, manteve os sapatos de pano e ei-las, decididas, a encaminharem-se para o portão. Saíram de mãos dadas, os pauzinhos de incenso na mão e, na roupa interior, um bolso com sapecas. Caminharam sorridentes, seguindo em frente, passando por um templo ocidental. A aldeia ganhava vida à medida que crescia o dia. Passaram para a beira rio, onde palafitas davam para um terreiro arredondado. No chão, peixes secavam com sal. Um cão ladrou quando se cruzaram com um soldado sonolento, saindo de uma das barracas, ainda abotoando a farda.
No terreiro vazio, um pequeno altar no chão. Lai Ma acendeu o incenso, agachou-se e iniciou, muito baixo, uma cantilena em língua estranha, inspirando repetidas vezes enquanto balanceava o tronco para a frente e para trás. Depois, espetou os paus de incenso entre os outros e ergueu-se, levando A-Ieng consigo. Esta nunca se atrevera a perguntar o que tudo aquilo significava, para além da oração a um tou tei (deus do lugar).
Tomaram o caminho de regresso à casa de Lao Wing Man. Lai Ma reuniu os oito à volta da mesa e, sorvendo chá, anunciou que nessa noite partiriam para Macau.
Um olhar de espanto invadiu os restantes. "Mas... o que vamos fazer?". Lai Chói Sán olhou para o que tinha feito a pergunta e, enigmaticamente, respondeu: "Retribuir...". Recolheu-se a um catre, com Lao a dormir o sono do opiómano. Os outros também se acomodaram aqui e ali, preparando-se para a saída nocturna.
À hora combinada, pelo mesmo caminho, regressaram ao junco, que contornou a ilha. Do grupo, quatro passaram para outra embarcação de pesca, devidamente registada, que ancorou no Porto Interior, já passava das nove da noite.
Num bote, chegaram a terra. Por baixo das arcadas, dirigiram-se a um homem que fumava cachimbo de água. Lai Ma falou em hakka, o homem ergueu-se indolentemente e dirigiram-se para o templo de A-Ma. No largo, o homem entregou às duas mulheres um varão de bambu e duas cestas. Lai Ma entregou o tam kón a A-Ieng, que o poisou sobre as cestas, atando-o com cordas. Subiram a rampa do Quartel dos Mouros, cestos ao ombro, desafiando as autoridades ali estacionadas.
Foram subindo a estrada de terra batida, falando em hakka. A-Ieng procurava discernir alguma palavra, olhando o sentinela barbudo, que pouca importância deu ao trio. Avançaram até ao fim do caminho, subiram e desceram outro, e ei-los chegados a um templo ocidental com uma escadaria. Viraram à esquerda e entraram num casinhoto. O homem acendeu uma lamparina de óleo. Havia apenas um catre e uma mesa. Ao fundo, uma banca, um fogareiro a carvão e um abano. "Kan Sôk (tio Kan), preciso de ir até I Long Hâu (bica de duas bocas)". Aquilo era zona guardada por fei tchâu lou (africanos, landins), avisou o homem. Lai Chói Sán sabia disso, "há vinte e um anos mataram o meu homem em Lu Wan (Coloane)...". E por aí se ficou.
Kan Sôk, meditabundo, insistia que era muito perigoso. "A ousadia é sempre inesperada", respondeu-lhe a mulher, olhando-o nos olhos. Acabou por concordar. Foram-se pelo escuro da noite.
A manhã daquele dia de 1931 rompeu demasiado cedo. Junto à bica de duas bocas, na zona da Flora, ao pé do Palacete da Flora, residência de Verão do Governador, uma forte explosão acordou a cidade. Num raio de 300 metros tudo ficou destruído. Registaram-se 41 mortos. Às 5:35 da manhã, inexplicavelmente, trinta toneladas de pólvora explodiram.
Muito se especulou sobre as verdadeiras causas deste terrível acidente, aventando-se até ter sido obra de pirataria. As autoridades porém, negaram.

Nota do autoreste texto, embora baseado em factos e alguns personagens reais, é inteiramente ficcionado.

Monday, April 4, 2016

SOLIDÃO


António Conceição Júnior

José Plácido Meireles de Lima procurava afastar do pensamento as palavras que ouvia sobre o defunto, ali emoldurado por dezenas de flores. Pensava o quanto os vivos descobriam virtudes em todos quantos partiam, mesmo no pior dos safardanas.
Estavam na Sé Catedral. A igreja estava cheia e o colarinho de José Plácido, vestido de preto, empapava-se de suor. Mal humorado, ouvia os elogios ao falecido e o roçagar dos leques que aliviavam as senhoras dos calores de Agosto.
Ali estava porque era um hábito, mas tudo o irritava. Das poucas vezes que ia sozinho, aquando da homilia, o sacerdote subindo ao púlpito, ele e mais uns quantos saíam para fumar, ante o olhar reprovador de algumas consortes.
Olhou o caixão aberto e o rosto de cera, questionando-se sobre o que era a morte e como transformava a matéria outrora habitada. Habitada? Deu-se conta do que pensara. Sentia-se confuso sempre que pensava nisso. Entretanto começara o Pai Nosso. Todos se curvaram,  cabeça baixa, rezando alto "Pater noster, qui es in cælis... ".
Plácido inspirou longamente, admitindo que não perdoava a quem o tinha ofendido. Olhou as "beatas" pelo canto do olho enquanto se alinhavam para a comunhão. "Está quase", pensou, ansioso. 
José Plácido de Lima tinha nascido de uma relação entre a cozinheira chinesa e o dono de uma casa respeitável. A desgraçada vivia no rés-do-chão da casa, que era como uma semi-cave, entre garrafeira, lenha, sacos de arroz e outros víveres. Foi despedida e ele levado para o Orfanato Salesiano, onde o esperava mão leve, que lhe assestava por tudo e nada.
Era "filho natural" de um senhor que preferiu o anonimato, assegurado por uma generosa doação ao dito Orfanato. Ali entrou sem nome de baptismo.
Cresceu entre abandonados ou verdadeiros órfãos. A infância tinha sido rotineira, entre confissões, oratório, missas, reguadas, estudos de português, tabuada, arroz regado com sutate(1) e, às vezes, alguma carne. Deram-lhe o nome de José, assim mesmo, sem mais. E os dias foram passando iguais. Sentia ser ninguém, nada, um acidente apenas.
Um dia, chamaram-no, juntamente com outros miúdos de oito e nove anos, para uma sala onde estava o padre director e um casal. Alinharam-nos contra a parede, cabeças baixas. Somente José apresentava alguns, poucos, sinais de mestiçagem. No orfanato chamavam-no fa-sang (amendoim) pelo formato do rosto. A senhora olhou, olhou, e foi adoptado.
Levaram-no de imediato vestindo o seu bibe encardido. Despediu-se do padre director e ei-lo a entrar, pela primeira vez, num automóvel.
Dona Cássia tratou de convencer o marido a perfilhá-lo. Arnaldo Figueiredo Meireles de Lima, causídico abastado, lá anuiu, e eis que a José lhe acrescentaram o nome de Plácido e o sobrenome Meireles de Lima.
José cresceu num casarão para as bandas da Flora, com jardim e pavilhão de Verão, palmeiras, canteiros de flores, entre criadas chinesas, tutores e visitas de abastados clientes que demandavam o saber do Senhor Doutor.
Aos doze anos foi para o Liceu, ali bem perto. Dona Cássia, porém, fazia questão que fosse de motorista, o que lhe valeu a galhofa dos colegas. O rapaz, no seu casaco azul escuro, calças brancas e sapatos a condizer, olhava para os outros de soslaio, os complexos engolidos. Ouvia remoques que ignorava. Aos quinze anos tinha crescido. Estava alto, o cabelo era negro, sempre bem cortado, ligeiramente ondulado. Os olhos eram muito amendoados como os de tantos outros. Aos dezasseis cresceu-lhe o buço, uma amostrazinha que lhe valeu um acréscimo à alcunha, camarang, por causa dos pelitos revirados em forma de camarão. Era o camarang fá-sang, que Macau sempre abundou em alcunhas.
Crescido, logrou namoriscar uma colega mais adiantada. A paixão foi mais forte e, certa noite, num quintal próximo do liceu, Josefina entregou-se-lhe. Os encontros repetiram-se. Colegas viram-no saltar o muro da casa dos Lopes e a notícia correu como um rastilho, galgou ruas, travessas e, num sussurro, chegou aos ouvidos de Dona Cássia e do marido. As reacções foram diversas. "É má-língua de Macau", disse Dona Cássia. Arnaldo Figueiredo Meireles de Lima, não lhe respondeu, mandou o chauffeur pegar o Zé e levá-lo ao escritório.
Suaves pancadas soaram no gabinete de Arnaldo de Lima. Armantina, que trabalhava ali, anunciou a sua chegada pondo a cabeça dentro do gabinete. "Que entre", rosnou Arnaldo de Lima debaixo da bigodaça encerada e de pontas reviradas. José Plácido introduziu-se no gabinete colado à parede, como uma sombra. O rosto estava lívido. "Dá licença, Pai?".
Arnaldo de Lima pousou o charuto e olhou-o por cima das lunetas. "Com que então anda a completar a sua educação física a saltar muros, não é assim?". A voz não se tinha elevado mas o tom não era encorajador. Levantou-se e um enorme estalo quase atirou o rapaz para o chão. E mais outro e ainda outro, puseram a cara de José Camarang mais rubra do que o de uma donzela.
"Você desapontou-me muito. Tinha planos para si, mas agora mudaram", sibilou roucamente o causídico lisboeta, há muito radicado em Macau, sem deixar de fitar José com ar sério. "Fica avisado que as saídas nocturnas acabaram, o Liceu acabou e virá todos os dias aqui para o escritório, aprender a ser útil. Começará amanhã. A D. Armantina dar-lhe-á que fazer! Em vez de bacharel irá para escriturário".
O destino de Camarang fá-sang estava outra vez traçado.
Olhou novamente para o cadáver de Arnaldo Meireles de Lima. Um ódio ao morto nasceu inútil. Tinha-lhe dado oportunidade de aprender boas maneiras, torrá português, mas foi um desastre.
Passara anos numa repartição. Dona Cássia, convencida pelo marido, afastara-se. Daquele melro não viria coisa boa. "Falta de berço...", suspirara rendida.
José Camarang, sem conhecer pai e mãe, lá foi roçando as mangas de alpaca junto de bacharéis e doutores a quem se procurou encostar para colher benefícios.
Os anos passaram e José Camarang contava  o tempo para se aposentar. Sem grande sorte nos avanços aos bacharéis e doutores, chegara-se à Rua da Felicidade em busca de algum ricaço chinês precisado de um bilingue. Fora de horas conhecera algumas p'ei pá chai e tinha-se mesmo aventurado no Pátio das Galinhas, para servir os apetites dos convivas.
Camarang Fá-Sang ali estava. 
Perante o esquife, maldizia o destino, odiando tudo o que se virara contra ele. Olhava a sua vida, da qual era simultaneamente actor e vítima. Jamais conseguira resolver-se, conhecer-se, distinguir os seus sentimentos. Não sabia que fugia de se enfrentar. Faltara-lhe sempre lucidez para se compreender. 

No quarto modesto que ocupava enrolou outro cigarro, acendeu-o ficando a olhar o fumo em ascensão, linhas rectas, serenas, verticais. Estava só, nascera só, perdido das origens, dor que carregava consigo, sentimento complexo esse. Pela janela olhou os escassos passantes. O tempo esfriara entretanto. Vestiu o camisolão. Sentiu-se mais aconchegado e, nesse aconchego, percebeu finalmente que ele, como todos, era só, e morreria como os outros, tão só como nascera. Sentiu alívio nessa incontornável verdade. Levou décadas para, enfim, perceber a sua singularidade e a similaridade com todos os outros. Na sua mente, algo embotada pela carga do passado, a vida passou a fazer um sentido que nunca lhe ocorrera. Os outros eram os outros, gente que invejara até esse momento. Sorriu, despiu o camisolão, vestiu o casaco mais forte, pôs o chapéu e, aliviado, fechou a porta do quarto alugado. Saiu para a rua e, pela primeira vez, respirou o ar fresco apaziguadamente. Um sorriso aflorou-lhe enquanto os seus passos se perdiam, encontrados.

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(1) molho de soja