António Conceição Júnior
Imprecisa, em 1986, uma notícia informava que um condutor de triciclo cometera
suicídio pendurando-se no gradeamento da ponte Macau-Taipa.
O perfil da cidade parecia
benevolente no contraluz do sol poente. Com a ponta do pé, que recolheu de
imediato, não fosse haver um poço sem fundo, sentiu a água morna e o lodo do
leito do rio. Teve repugnância. Decidiu pôr-se de novo a nado, duas cabaças atadas
à cinta à maneira de bóias. Nadou até sentir um apoio sólido por debaixo da fina camada de lama. Parou
no molhe, exausto.
À direita, na ligação da
barreira de pedra, pescadores lançavam redes esticadas por quatro bambus. À
esquerda, o vulto de uma igreja no cimo de uma colina. Olhou para trás, levou a
mão à cintura e puxou a corda fina de fibra de coco. Foi puxando, encostado às
rochas, receando os fachos de luz que um farol projectava. Por fim, a corda
trouxe um saco de pano. Encostou a cabeça ao molhe e respirou fundo. Chegara.
Lentamente, desatou a corda apenas pelo tacto e desembaraçou-se das cabaças. Com
cuidado subiu as pedras do molhe. Os intermitentes lampejos do farol permitiram
que visse os pescadores, bambus ao ombro, dirigirem-se para terra firme.
Deitou-se, o saco fazendo de almofada, para que a roupa secasse, mas adormeceu,
não soube por quanto tempo. Acordou sobressaltado, olhando um céu estrelado. Não
sabia as horas. Levantou-se e decidiu que tinha de caminhar. Subindo dois
degraus que o trouxeram para terra, vislumbrou perto umas árvores. Mais longe, contra
o céu ainda escuro, erguia-se uma massa ainda mais negra.
Guó Jianjun atravessou lesto a estrada
deserta, os braços apertando o saco contra o peito. Embrenhou-se na terra
batida, sentindo a humidade sob os pés. Havia um cheiro que o fez recordar os
campos que atravessara a cavalo. Agachou-se, concentrando os sentidos para
entender a razão daquele odor. Discerniu uma barraca ao longe. Sapos coaxavam e
mosquitos zuniam perto, numa sinfonia que lhe era familiar. Viu uma bananeira
com fruta por colher. A fome apertava, comeu. De uma lata, bebeu água, a mão em
concha.
Lá para Oriente já clareava e
uma luz acendeu-se na barraca próxima. Junto à bananeira, escavou rapidamente a
terra húmida. Abriu o saco, retirou algo que colocou no buraco, e cobriu-o
novamente. Colocou um pesado pedregulho por cima e alisou a terra. Olhou em
volta. Precisava fixar o local antes de se afastar.
Amanhecia quando Guó chegou à
cidade. Olhou em redor para se orientar. Encaminhou-se para uma rua. Tudo era
novo aqui. Os edifícios recordavam-lhe vagamente Xangai, Tsingtao, mas aqui
tinham um sabor que não sabia decifrar. Sobre jornais velhos, esteiras, caixas
de papelão espalmado, viu gente a dormir debaixo de arcadas.
Guó Jianjun tinha servido
Chiang Kai-shek desde os tempos de Xangai. Tornara-se um dos elementos de
ligação entre o Generalíssimo e o chefe do Grupo Verde, Du Yusheng, a quem
chamavam "Du, orelha grande". O Grupo Verde era uma seita que fazia
os trabalhos sujos para o Kuomintang. Chegara a major quando a debandada no seu
regimento começou, depois das notícias de Nanjing. Pegaram no ouro que puderam,
meteram-se a caminho, cada um por si, e deixaram Xangai para os japoneses.
Conseguira chegar a Ao Men. Era
a última etapa. Pelo caminho, vira cadáveres que boiavam nos braços do delta.
Tinha conseguido contornar os guardas japoneses, nunca largando o saco. Da ilha
vizinha tinha olhado a cidade, mas não se atrevera a atravessar aquele braço de
água porque lanchas patrulhavam junto aos juncos em descanso.
Ouvira tiros, vislumbrara
caçadores que se entretinham a caçar. A sua Mauser C96 perdera-a na fuga.
Tirara o uniforme e lançara-o a um poço numa aldeia abandonada. Caminhou até
onde tudo era deserto e, na calada da noite, foi atravessando ilha a ilha.
Quase desesperara.
Guó Jianjun, curvado, percorreu
as arcadas. Passou por uma praça de traça ocidental. Procurou andar por ruelas,
evitando expor-se. Meteu por uma viela, assinalada numa placa como Rua dos
Cules e, ironicamente, desembocou na Rua da Felicidade. Desorientado, virou à
direita, na Travessa do Aterro Novo. Encontrou uma casa de câmbios e de
penhores. De cabeça ainda rapada, rosto sujo, preocupava-o não se fazer
entender. Olhou em volta e entrou rapidamente, contornando um alto biombo
vermelho. Olhou para cima, para o funcionário atrás das grades protectoras. Pôs
a mão na cintura e retirou das calças um lingote de ouro bem amarelo, quase
quadrado, com a inscrição 999 e, por baixo, 1000. Deveria ter de espessura um
dedo.
O funcionário olhou a peça com
ar de treinada indiferença. Olhou para Guó e, sem querer, tremeu. Guó Jiajun
olhava-o com um olhar que há muito não tinha. Era um olhar frio, gélido,
impiedoso. O homem retirou-se, e Guó ouviu-o falar com outro num dialecto
desconhecido. O homem voltou, olhou de dentro da jaula. Disse-lhe algo em
cantonense. Guó respondeu uó pu tong(1)
. O outro pegou numa folha e escreveu com o pincel "o câmbio está a
oitocentas patacas". Guó olhou para ele e rosnou " Huángjīn shì jīn" (ouro é ouro). Os
olhos eram duas ranhuras. O homem voltou a conferenciar com o superior
invisível. Aproximaram-se os dois e o patrão olhou, mirou, e, atarantado,
gaguejou "ni shi, ni shi"
(você é, você é…). Os olhos de Guó abriram-se mais, aquele rosto gordo não lhe era
estranho. "Ni shi lu ma?" A
frase era enigmática, pois lu tanto
podia significar verde como corça. Guó sorriu, levou a mão direita ao externo,
o polegar e o dedo mínimo abrindo-se ao máximo, o indicador e o anelar
esticados e o dedo médio recolhido e deixou a mão escorrer lentamente até ao
estômago.
O superior deu uma ordem ao
funcionário, abriu a porta oculta para Guó subir, ni lai, lai (venha, venha). O outro ficou a contar enormes notas
arroxeadas de dez patacas. Cem notas de dez.
Li Gangming reconhecera Guó.
Como era pequeno o mundo. As memórias de Du Yusheng, o orelhas grandes, tinham
atravessado Xangai até ali. Ambos eram sobreviventes da mais recente das
tragédias na China. Ambos tinham receado o poder crescente de Mao e de Zhou
Enlai. Os comunistas tinham-se separado dos do Kuomintang desde 1927, embora
ambos tivessem combatido os japoneses. Aquilo era uma confusão. Apenas tinha
sabido que os do Kuomintang haviam fugido, quando os japoneses entraram em
Xangai.
Li levou Guó para outro
compartimento, mirou Guó e pegando num pau com uma forquilha, depois de ter
consultado uns papelinhos atados à roupa, tirou uma túnica e calças largas que
lhe entregou.
O funcionário, agora reverente,
entregou com as duas mãos um embrulho com as mil patacas. Foi buscar uma bacia
de esmalte, água quente e entregou uma toalha para Guó limpar o corpo.
Meia hora depois Li Gangming e
Guó Jiajun, agora apresentável, saíram e foram jantar. A guerra acabara, era
tempo de se ajustarem algumas contas.
Guó passou a viver à grande,
quarto no Hotel Central. Jogava com frequência. Li Gangming fora obrigado a
fechar a casa de penhor, vendera a licença de cambista por bom dinheiro e
partira para Hong Kong.
Aos poucos, a cidade foi-se
despovoando dos refugiados. O mundo não parava. Muitos ficaram, adaptando-se ao
pequeno burgo. As idas de Guó Jiajin ao buraco junto à bananeira pararam.
Esgotara tudo, estoirara tudo numa febre autodestrutiva, numa raiva contra o
destino. Vivia na miséria após alguns, poucos, anos de abundância.
Pedalava um triciclo, tez
queimada do sol, longas barbas brancas, e corpo magro, ressequido. Falava sozinho.
Nos anos oitenta, um jornal
noticiou, de forma vaga, um suicídio.
Era Guó Jiajun que havia desistido de viver.
Durante a noite, o ex-major tirou o cinto, atou-o ao corrimão da ponte, enfiou a cabeça e deitou-se de barriga para baixo deixando-se asfixiar. Morte anónima, a do condutor de triciclo.
(1)Não compreendo
