António Conceição Júnior
Saiu para
a rua Central respirando o ar húmido. Era já noite. O dia tinha sido cansativo
no Comando, mas decidiu não ir directo para casa. Mudara-se no Gabinete e
vestia agora um fato de linho cinzento que o mainato entregara ao ordenança.
Dispensou o carro. Desceu o troço que o conduziu à Almeida Ribeiro, olhando de
passagem para a rua que levava ao Tribunal.
Baixou a
cabeça, num cumprimento seco, quando o polícia mouro lhe fez a continência.
Àquela hora, ainda não tardia, já o silêncio pairava naquela zona, iluminada
por candeeiros de mercúrio, de uma luz crua, algo azulada. As escadinhas,
anexas ao edifício dos Correios, estavam vazias. Apenas se distinguiam, mais
distantes, uns vultos junto ao casarão na esquina com a Travessa de S.
Domingos. "Mais refugiados a morrer de fome" pensou, enquanto acendia
um Lucky Strike, suprimento que uma sombra lhe fornecera e que no mercado negro
custava quarenta patacas.
Pôs os
pensamentos e os escrúpulos de lado. Voltou à esquerda e entrou na Almeida
Ribeiro. Ao chegar ao Senado, olhou para o Largo e para os escassos automóveis
estacionados. De uma janela próxima, um erhu(1)
gemia histórias antigas, enquanto um carro preto virava à direita, vindo de S.
Domingos. Ferreira mordeu os lábios, irritado por ter dispensado o motorista.
Estugou o
passo por instinto, passou pelo "Soi Cheong" que ainda se encontrava
aberto. À porta, um jovem de olhos protuberantes cumprimentou-o: "Mom
noiti sinhó". Ferreira saudou-o com um gesto. Ali, a dois passos, do outro
lado da avenida, erguia-se imponente o mais alto edifício de Macau, o Hotel
Central do Comendador Kou Ho Neng e Fu Tak Iam, concessionários do jogo através
da sua Tai Heng & Co. O Hotel tinha
sido construído a pouca distância da ponte-cais onde o "Tai Loi", o
"Takshing" e o "Fatshan" atracavam. Os passageiros, nas
três horas de agradável viagem desde Hong Kong, jogavam nos salões principais o
"pai kao", espécie de
dominó chinês, indiferentes ao histórico mar, às ilhas e alforrecas que se
patenteavam a quem ficasse no convés.
O coronel
parou defronte à entrada do Central. Respirou fundo e cruzou solene a Almeida
Ribeiro para o feérico átrio Art Deco versão local, pintado a creme. Entrou no
elevador e premiu o botão do primeiro andar. Subiu e o abrir da porta coincidiu
com o intempestivo barulho de gente excitada, vozearia, risos e demais
sonoridades de emoções diversas. Os homens das mesas de fan tan ou do tai siu e ku sêk usavam largas calças chinesas e
confortáveis sapatos pretos de solas de feltro. Alguns deles atarefavam-se a
retirar das cestinhas, que se suspendiam dos varandins do andar de cima, o
dinheiro das apostas gritadas lá do alto. Deu uma volta, viu poucos conhecidos,
tudo estava em ordem. Observou os seguranças nas suas túnicas, as pistolas
cuidadosamente ocultas, abanando-se em largos leques de papel castanho e
fumando cigarros enrolados à mão.
Aniceto
Ferreira estava em pleno coração da vida nocturna de Macau que, apesar da
guerra circundante, não parava.
Entre os
diversos refugiados aqui aninhados, de Hong Kong, Xangai, Zhong Shan e Foshan, entrados pelas
Portas do Cerco antes do seu fecho pelos japoneses, havia também russos e
russas brancas, fugidos desde há muito do distante Norte, em inenarráveis
trajectórias de sobrevivência. O modo como toda esta gente vivia, era, na maioria
dos casos, desconhecido. O Governo acolhia os que podia. As mulheres de guerra,
para sobreviver, convergiam para os locais de diversão nocturna, fossem belezas
de Xangai ou de Vladivostok. Outros dedicavam-se a tarefas de respeitáveis
profissões. Os anónimos dos anónimos iam morrendo à fome pelos cantos,
desistindo da luta, exaustos de tanto fugir.
A cidade
era um enxame silencioso de gente em sofrimento. A população local, compassiva
mas impotente, procurava ajudar como podia, partilhando o dispensável.
Ferreira
tornou ao elevador, esperou e, desta vez, premiu o botão do quinto andar. Saiu
para outra atmosfera. Uma orquestra de metais tocava as canções em voga. Foi
abordado por uma jovem que lhe ofereceu tickets,
cartões que permitiam ao comprador fazer par com as dançarinas que se
vislumbravam sentadas ou na pista. O resto era ajustado durante a dança.
Olhou do
pequeno vestíbulo para o salão. Não era muito tarde, mas já lá se encontravam
oficiais japoneses bebendo mao tai,
acompanhados por damas que lhes enchiam os copos. Mais além, para a direita,
vislumbrou duas mesas com chineses, alguns envergando fatos tradicionais,
outros, com negros cabelos luzidios de brilhantina, vestiam à ocidental.
Ferreira lamentou estar sozinho, sem nenhum dos seus agentes mais conhecedores
do meio. Parecia que tinham convergido para ali todas as facções em conflito,
no oásis de tréguas, mesmo assim frágil, que era Macau. Não sabia distinguir os
do Kuomintang e os Comunistas. Os das seitas já sabia que andavam de cabaia
curta e calça larga. Tudo isto lhe passou pela cabeça em escassos segundos.
Agora não podia recuar, tinha de entrar.
Parou
perto da mesa dos oficiais japoneses. Acendeu um cigarro, mas queimou-se com o
fósforo e fez um esgar. Um dos oficiais japoneses sorriu, abriu a sua gunto(2) com a mão esquerda
e, mostrando um pedaço da lâmina, passou o dedo, sorrindo sempre. Sem desviar o
olhar de Ferreira, fez cair o sangue no mao
tai e bebeu. Levantou o copo e, entre as gargalhadas dos outros, gritou kampai(3). O coronel sentiu o
rubor subir-lhe ao rosto, desviou os olhos e afastou-se em direcção às mesas da
direita, onde os ocupantes, se tinham tornado tensos a olhar os nipónicos.
Ferreira engoliu a provocação, sabendo que qualquer resposta seria um rastilho
curto para uma confrontação. Havia os colaboracionistas dos japoneses, havia as
seitas, estava lá todo o mundo. Aquilo era um barril de pólvora embalado ao som
de uma orquestra. Em 1941 os americanos entraram na guerra, em 1943 os
japoneses tinham rompido a neutralidade de Macau, atravessando as Portas do
Cerco, na tentativa de apreender um navio mercante britânico. A polícia
enfrentara-os, mas estes causaram 20 baixas e Macau foi forçado a tornar-se
protectorado nipónico, com oficiais destacados como conselheiros. Ferreira
odiava-os entranhadamente.
Sentou-se
numa mesa vazia. Bebeu de um trago o CRF que pedira e pensou ter sido sábio não
extremar posições. A contenção custara caro ao seu ego, mas pelo menos não se
viria a arrepender. Estava certo que os aliados venceriam. Pearl Harbour tinha
sido em 1941 e já se estava em 1944.
A súbita
aparição de Silva no salão interrompeu os pensamentos de Aniceto Ferreira.
Parecia procurar alguém, mas tendo encontrado o chefe, encaminhou-se na sua
direcção, sempre com a mesma expressão. O Silva nascera e crescera em Macau e,
na polícia, era um dos homens da sua confiança. Conhecia todos os meandros,
sabia distinguir as facções, reconhecia as hierarquias das seitas, entendia a
noite onde tudo acontecia.
Silva,
pedindo licença, sentou-se. Ali não eram obrigatórias demasiadas formalidades. Ferreira
perguntou se havia novidades.
"Se
dá licença, sugiro sairmos daqui já. Houve um pequeno incidente..." disse
Silva, oferecendo um cigarro, cigarreira de prata aberta. "O que
houve?" perguntou Ferreira, incomodado por não ter trazido o
revólver. Por cima do ombro viu entrarem
mais dois dos seus homens, que se sentaram numa mesa perto da entrada, um deles
chamando o empregado. Este inclinou-se, ouviu, aquiesceu e foi-se com a bandeja
vazia.
Silva
respondeu que explicaria depois. Levantaram-se e saíram da sala sem incidentes.
Aguardaram o elevador e a vendedora de tickets
saudou Silva com um tradicional "Vai embora tão cedo, Si Sing Sáng?"
Os seus
outros dois homens seguiram-no silenciosamente. Fechadas as portas, saudado o
comandante, o Silva confidenciou: "Meu comandante, um homem caiu lá de
cima e matou um condutor de triciclo. Não é bom estar aqui". Ferreira
ouviu, imaginando mais um desgraçado a atirar-se à rua depois de perder tudo ao
jogo. Morte era coisa que não faltava. Todos os dias se encontravam cadáveres
pelas ruas ou vielas, mortos de fome ou assassinados. As facções guerreavam-se
surdamente nas sombras da frágil trégua.
À saída,
um dos acompanhantes à frente e o Silva e colega a ladearem Aniceto, viraram à
direita, dirigindo-se para a Rua dos Mercadores. Na outra rua que ladeava o
Hotel, a rua Oeste do Mercado de S. Domingos, uma ambulância recolhia os restos
da tragédia tornada quase banal.
Caminharam
em silêncio até ao mercado. Àquela hora e com o racionamento, poucos vultos se
viam. Chegados à esquina da Travessa do Soriano, o Silva disse aos outros:
"Podem ir, eu acompanho o comandante". Silva sabia que protegendo o
comandante ganharia ascendente sobre este. A comunidade militar era pequena e o
incidente poderia criar embaraços desnecessários. "Meu comandante, não se
preocupe, nós tratamos disto. Vá descansar". Tinha tudo preparado e, assim
que desembocaram junto à entrada do mercado, um carro insuspeito acolheu Aniceto
Ferreira. "Boa noite meu comandante" despediu-se Silva. Dentro
reconheceu o seu motorista. Aquele Silva era competente como o diacho, porém
tinha artes de o apanhar sempre em contrapé e ser-lhe útil. Como teria ele
sabido do seu paradeiro, perguntou-se. Sentiu-se vigiado.
O carro
seguia agora pela Praia Grande, em direcção à Av. da República. A-Leong, o
motorista, conduzia sem uma palavra. Aniceto olhava o breu onde alguns tancares(4) e sampanas(5) aguardavam a maré
vaza. Sentiu um vazio e questionou-se sobre o sentido do seu papel ali. Não
dominava o chinês, as sombras não lhe eram familiares como eram aos seus
subordinados, que conheciam as faces e as máscaras das diferentes facções.
Sentiu-se enredado numa teia de guerra onde precisava, verdadeiramente, dos
seus homens para agir.
Suspirou,
cruzou os braços e deixou-se conduzir, disposto a não lutar contra o que o
ultrapassava. Como militar, tinha informações do mundo e do modo como a Guerra
do Pacífico se desenrolava. Soubera que as tropas nipónicas estavam a sofrer
pesadas baixas e tinham começado os voos dos kamikaze(6) contra os navios americanos na região. Era o
último recurso. Porém, isso não invalidava o seu sentimento de impotência e o
modo como tinha de se forçar por ignorar o que via pela cidade. A noite
engoliu-o no conforto da casa e, com a ajuda de uma garrafa, mergulhou no sono
do esquecimento.
No centro
da cidade, e porque não era só o comandante que tinha informações, a noite
ficou marcada pela morte de colaboracionistas japoneses. Começava lentamente a
raiar o dia do fim do conflito.
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(1) Violino chinês
(2) Sabre militar japonês
(3) Brinde em japonês, significando "copo seco".
(4) Tancar, bote muito ágil com remo na popa.
(5) Sampana vem do chinês sám pán, três tábuas, largura de três tábuas.
(6) Vento divino, de kami deuses xintoístas e kaze vento em japonês.
